Moradores questionam instalação de fábrica de óleo e farinha de peixe em Alexandra


Por Marinna Prota Publicado 21/09/2021 às 18h21 Atualizado 16/02/2024 às 13h57

Um novo empreendimento tem causado discussões entre moradores e o empresário que atuará na região do Rio das Pedras, no bairro de Alexandra, na cidade de Paranaguá. Uma fábrica de óleo e farinha começou ser construída este ano e causou desconfiança na região, já que os moradores alegam que o mau cheiro e o descarte de material de forma incorreta poderá acarretar em poluição da região, que já sofre com a presença do Aterro Sanitário.

A Associação de Moradores de Alexandra, por meio do presidente Nilson Antonio Cordeiro, convocou uma reunião, às 19 horas, no barracão da Igreja Bom Jesus, com os empresários na quinta-feira (16) para discutir questões ambientais. No entanto, eles não compareceram e mandaram um representante para falar sobre o assunto.

A empresa que comandará a operação é a Chapaval Comércio de Importação e Exportação de Pescados Ltda, que existe desde maio de 2018 e possui registro na Receita Federal com uma atividade principal de “peixaria”. O empreendimento pertence ao Rael Chapaval, que deverá ser o responsável por administrar a fábrica que começou a ser instalada na região.

Moradores se mostraram desconfiados e insatisfeitos com uma possível falta de transparência. No local da reunião estavam presentes moradores e também um representante da empresa,  Raul Pedroni França.

Logo no início Jamir Lourenço, morador do Rio das Pedras que se responsabilizou em auxiliar na explicação sobre a operação destacou como o produto chegaria até a fábrica. “Esses pescados vão vir em caminhões frigoríficos, com temperatura que vai manter a conservação desse produto, por que se este produto estiver em estado de decomposição ele não serve para produzir esses alimentos. Apesar de ser alimentos para animais futuramente, vai ter que atender e ter o selo para alimentos para humanos”, ressaltou.

Segundo o secretário Municipal de Urbanismo, Koiti Takiguti, a empresa possui todas as licenças necessárias liberadas pelos órgãos competentes para que esteja em operação. “Esse empreendimento já vem sendo licenciado há mais de 2 anos”, disse o secretário durante a reunião com os moradores.

Dentre os questionamentos também estava a preocupação com a poluição do solo da região, que já possui danos por conta do Aterro Sanitário. “A comunidade tomou conhecimento da instalação da fábrica por meio de uma postagem no Facebook. Verificamos em Cananéia, Itajaí e Penha as fábricas foram fechadas por causa da poluição ambiental e do mau cheiro no raio de 5 quilômetros. Então a comunidade se reuniu para pedir explicações e informações, além de fazer uma comunicação para o Ministério Público”, disse Anaclete Magno, moradora da região.

A fábrica que funcionará com a representação comercial do empresário parnanguara Rael Chapaval, de 56 anos e que possui um comércio de peixes na cidade, deverá responder a um protocolo sanitário estabelecido pelas autoridades competentes. Em resposta ao JB Litoral, ele afirmou que “todo processo produtivo dessa fábrica se encaixa nas regras rígidas do MAPA/Ministério da agricultura, e todos os equipamentos a serem utilizados são novos”.

Operação

Conforme repassado aos moradores, a empresa deverá atuar com peixes que não serão aproveitados na venda para o consumidor in-natura, desta forma eles serão destinados a fábrica para que passem por um processo de retirada do óleo, além de transformação em farinha, além da criação de um terceiro composto utilizado para outros fins, como ração animal.

“Essa atividade industrial existe há séculos em todos os países que tem áreas costeiras/mar, e no nosso caso específico em Paranaguá somente será utilizado/comprado peixes que não são comercialmente viáveis para o consumo humano. Além de serem pescados por pescadores artesanais que há mais de 40 anos que sobrevivem dessa atividade”, afirmou Rael Chapaval.

“A princípio o que nos apresentaram vai ser processo limpo, mas se não houver acompanhamento, monitoramento a coisa fica só no papel e não acontece, é isso que a gente tem que brigar e acho que todos vocês estão aqui para isso, imagino que todo mundo quer trabalho, desenvolvimento, mas tem que ter essa segurança”, disse Koiti.

Mais questionamentos

Apesar de todas as afirmações nenhum documento oficial foi mostrado ou entregue a comunidade. Com a palavra, Ana Lucia Barbo Lourenço, moradora do Rio das Pedras, perguntou “qual o diferencial de vocês para não emitir os odores? Eu queria que ficasse bem claro essa questão para a comunidade, como será essa taxa de poluição por odor, como se deu as licenças para o IAT, e sobre a placa ali que foi tirada”.

Em resposta, Raul Pedroni disse que “as licenças estão todas certas, não estaríamos gastando o dinheiro que estamos gastando aqui. Agora sobre o odor é zero, e sobre a placa que foi tirada por que não tinha a inscrição do CREA do engenheiro, só por isso, essa semana vai ser colocada de novo”.

Segundo a empresa, haverá um processo de cozimento dos peixes que gera os vapores com odor. No entanto, um sistema com a utilização de cavacos de pinus deverá ser utilizado para impedir que o mau cheiro saia de dentro da fábrica e será extirpado em um processo de filtragem. Para o município, segundo Koti, o sistema foi apresentado como “odor será quase zero, não vou dizer que é zero por que pode exalar algum tipo de odor talvez para alguns o odor do pinus pode ser desagradável. Esse foi o estudo técnico que foi apresentado para o município, esses procedimentos nós estamos acompanhando, para que a gente não traga para o Rio das Pedras uma empresa que vá criar mais problemas do que benefício para comunidade o e para o município.”.

Outro morador, que tem residência a 100 metros de onda a fábrica será instalada questionou argumentando que “até agora o teórico é bonito, só que a pratica é diferente, esperamos que não seja, mas a gente sabe que no fundo acaba sendo. Se todo esse sistema não funcionar, nós teremos o apoio de vocês (prefeitura) para podermos reclamar? Por que nós moramos aqui. E qual o interesse em ser aqui no Rio das Pedras, em um local industrial ou em um parque industrial realmente?

Para este questionamento não houve resposta, já que os ânimos começaram a se exaltar. Os moradores pontuaram a falta de transparência sobre a instalação e uma possível não conformidade no processo de comunicação com a população do entorno. O presidente da Associação de Moradores de Alexandra acabou assumindo a reunião e argumentou que “a gente não é contra a empresa, o que causou estranheza foi que a comunidade não tinha conhecimento da instalação da empresa aqui no Rio das Pedras. Ninguém sabia, acredito que nós viemos saber através desse cartaz que estava lá. Bateram foto e postaram que ia sair uma fábrica de farinha”.

Segundo o secretário Municipal de Urbanismo “talvez houve uma antecipação do processo da consulta popular, até pensei que os técnicos da empresa estariam aqui para apresentar de forma mais técnica essa situação, quando fui convidado para vir aqui, imaginei que eles estariam aqui. Agora quanto ao comprometimento com a empresa com a comunidade, isso tem que ser criado, porque nenhuma empresa pode ficar instalado sem ter uma conversa com a comunidade isso é o que procuramos.”.

O vereador Luizinho Maranhão, do PSB, que também compareceu ao encontro pediu a palavra para registrar que “é importante também deixar claro, nesta noite para todos vocês que a apresentação da empresa e a explicações detalhadas da empresa, não estou criticando Jamir que falou aqui, deixou muito a desejar, ninguém conseguiu entender nada”.

Já o vereador Oséias Bisson, do Podemos, responsável pela divulgação de fotos da placa e imagens da obra da fábrica, detalhou que “prontamente procurei saber quem era o dono da empresa, marquei uma reunião, eles vieram com o técnico e apresentaram para mim juntamente com o Koiti, a maneira que a empresa ia operar. Eu falei que ia acompanhar todo o processo, estaria junto à comunidade para que não se cause dano nenhum. Porque nós temos que continuar com o equilíbrio, empresa-comunidade. Uma empresa que vai mexer com peixe, quero crer e estar junto com a comunidade, se instalar aqui, que venha operar dentro da legalidade. Quero ver uma empresa, com certeza dando emprego”.