Paranaguá foi o primeiro núcleo urbano do Estado, sendo considerada, por essa razão, o berço do Paraná. O Centro Histórico foi tombado em 1990 pela Coordenação de Patrimônio Cultural (CPC-PR) e reconhecido como patrimônio nacional, em 2009, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Com tantos prédios históricos que retratam a história do município e do Estado, a cidade, que poderia ser um museu a céu aberto, convive com edificações em ruínas. O incêndio ocorrido no último dia 4, no Instituto de Educação Dr. Caetano Munhoz da Rocha Neto, chamou a atenção para outras estruturas que necessitam de restauro, bem como para a importância de projetos que, de fato, garantam a valorização e a preservação desse patrimônio.
O JB Litoral inicia uma série de reportagens sobre a situação desses edifícios, especialmente os localizados na área tombada do Centro Histórico. Nesta edição, apresenta exemplos de discussões recentes entre autoridades sobre a possível restauração de imóveis pertencentes ao Município.
Palácio Visconde de Nácar
O professor e historiador Hamilton Ferreira Sampaio Júnior sabe da imponência que Paranaguá sustentou por anos. Por isso, tem divulgado, em suas redes sociais, os riscos que os prédios históricos têm enfrentado atualmente na cidade.
Em entrevista ao JB Litoral, ele afirmou que, além da sede do Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá (IHGP), o Palácio Visconde de Nácar — edifício que já abrigou a Câmara Municipal de Paranaguá — também está em risco.
Construído em 1856 como a residência do Visconde de Nácar, uma figura influente no período imperial brasileiro, o imóvel é parte fundamental da história do município, representando a opulência e o luxo da elite paranaense do século 19. Em 22 de dezembro de 1966, o antigo palácio foi oficialmente tombado pelo estado.
O local, que já foi símbolo de poder político, hoje convive com invasões e arrombamentos. “Há risco de incêndio devido às invasões. Os invasores fazem fogo para cozinhar ou se aquecer, além do uso de drogas. Também há possibilidade de incêndio por raios e de colapso da estrutura, que apresenta rachaduras e escoramento”, observou Hamilton.
O Município assumiu a responsabilidade pelo prédio no início de 2021, com resolução da Câmara Municipal, que passou a propriedade para o Poder Executivo.
“É profundamente triste sermos testemunhas de tudo isso. Assistimos, quase impotentes, a História se esvaindo, em meio à ânsia de modernizar: ruas asfaltadas e prédios envidraçados erguem-se como símbolos de um progresso equivocado, como se fosse possível desenvolver uma cidade à custa da destruição de sua memória e de sua identidade”, disse o historiador.
Diante desse cenário, ele diz que é urgente a mobilização da população para um movimento de preservação. “O que se observa, ao longo de sucessivas gestões, é um persistente desrespeito à história e à memória de Paranaguá. Urge, portanto, que os gestores públicos aprendam também a amar a cidade, pois é justamente desse vínculo profundo que se constitui a identidade de um povo”, destacou Hamilton.
Projeto pronto, mas sem recursos
Em janeiro de 2025, a atual gestão municipal recebeu a visita de integrantes da Secretaria de Estado da Cultura para tratar de possíveis investimentos e de parcerias com a iniciativa privada, visando o restauro de imóveis históricos.
Na ocasião, houve o anúncio de que a Klabin poderia patrocinar a reforma do Palácio Visconde de Nácar. O JB entrou em contato com a empresa, que afirmou que “não assumiu nenhum compromisso para a execução da obra citada”.
No entanto, segundo o secretário municipal de Cultura e Turismo, José Reis de Freitas Neto, conhecido como Juca, a empresa desistiu. Ele afirmou que o projeto para revitalizar o Palácio Visconde de Nácar está pronto, mas não há recursos para viabilizar as obras, que devem girar em torno de R$ 15 milhões.
Ele acredita que a prioridade de aporte estadual de investimentos agora será para o Instituto de Educação e afirmou que, enquanto isso, a Secretaria monitora o edifício para evitar invasões. “O prédio já foi arrombado e lacramos novamente. Há um termo com o Iphan, que diz que é nossa responsabilidade manter o prédio lacrado”, afirmou o secretário.
Outros prédios que precisam de intervenção
Também do século 19, a Casa Cecy, marco da colonização árabe em Paranaguá, localizada no Centro Histórico, foi restaurada para sediar eventos culturais da cidade e chegou a abrigar a Fundação Municipal de Cultura Nelson de Freitas Barbosa, mas, segundo Juca, também está fechada por questões estruturais.
“Chega uma hora em que o prédio fica interditado, porque não há mais condições de uso. A gente não pode deixar chegar a esse ponto. Uma curadoria pode ajudar a resolver isso: um órgão responsável pelo patrimônio, que possa realizar serviços de manutenção pontuais, pode ser um caminho”, apontou.
Ainda segundo Juca, a Secretaria de Cultura e Turismo pretende formar um grupo de trabalho, com representantes da Prefeitura, do Estado e de órgãos de preservação, para cuidar dos imóveis históricos de Paranaguá. “Queremos tentar essa curadoria. Temos edificações que estão em estado crítico, que exigem ações emergenciais, mas também há aquelas em uso, com problemas como goteiras, por exemplo”, disse o responsável pela pasta.
Teatro Rachel Costa
Para o Teatro Rachel Costa, interditado desde janeiro do ano passado, após parte do teto desabar, Juca afirmou que sua equipe elabora um projeto de revitalização, mas ainda não há previsão para o início das obras, contrariando a própria Prefeitura, que afirmou, em janeiro de 2025, que uma licitação para a recuperação do espaço seria aberta em 90 dias.
A declaração foi dada pelo prefeito Adriano Ramos (Republicanos), que conduziu uma visita guiada para jornalistas, à época, para mostrar as condições do espaço. Caso o prazo tivesse sido cumprido, o processo licitatório teria sido aberto há um ano, em abril de 2025.
Em meados do ano passado, o diretor-presidente do Centro Cultural Teatro Guaíra, de Curitiba, Cleverson Cavalheiro, esteve no local para uma consultoria voltada à modernização dos equipamentos de palco.
A Administração Municipal também divulgou a destinação de R$ 1,7 milhão, por meio de emenda parlamentar do deputado estadual Hussein Bakri (PSD), para a recuperação do teatro. No entanto, até agora o projeto de recuperação e a licitação não avançaram.
O imóvel está localizado em área tombada, é classificado como Grau de Proteção 2 e está sob responsabilidade da Prefeitura de Paranaguá.
O JB Litoral procurou o Iphan e a Secretaria de Estado da Cultura do Paraná para saber se há projetos mais avançados de restauro dos prédios históricos de Paranaguá, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.
Participação da iniciativa privada
Já a Estação Ferroviária está um passo à frente dos demais prédios da cidade. O local foi restaurado em 2020 com investimento de R$ 2,2 milhões, com recursos divididos entre Governo Federal e Prefeitura.
Funcionando atualmente como espaço cultural, a novidade é que há tratativas para que sua administração seja transferida do Município para a Fecomércio-PR (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado do Paraná). Desta forma, a entidade ficaria responsável pela manutenção e conservação do local.
“A SPU (Superintendência do Patrimônio da União no Paraná) pediu para a Fecomércio passar um projeto para eles. Vamos ter que devolver para SPU esse imóvel para a Fecomércio assumir. Mas isso só vai acontecer após a aprovação do projeto”, explicou o secretário de Cultura e Turismo de Paranaguá.
“O caminho é não deixar nas mãos da iniciativa pública e sim para a iniciativa privada, que tem condições de fazer a manutenção recorrente, senão vamos incorrer no mesmo problema de sempre”, apontou Juca.
Em outubro do ano passado, a Prefeitura de Paranaguá assumiu a Estação Ferroviária de Alexandra, após a assinatura do Termo de Cessão. A empresa Rumo Malha Sul S.A. concedeu a edificação para o Município. A intenção era utilizar o local para eventos culturais, além de espaço de serviços e educação.