Vídeo de mulher cortando carne de tartaruga morta em Matinhos acende alerta de saúde pública


Por Brayan Valêncio Publicado 07/08/2025 às 18h46
Mulher viraliza após cortar carne de tartaruga morta
Mulher viraliza após cortar carne de tartaruga morta. Foto: Reprodução

Um vídeo gravado em Matinhos, na última semana, causou indignação entre ambientalistas e moradores locais. Nas imagens, uma mulher aparece cortando a carne de uma tartaruga encontrada morta na praia, enquanto reclama de estar sendo filmada. A gravação viralizou nas redes sociais, mas acendeu um alerta sobre os riscos à saúde humana e os impactos ambientais desse tipo de atitude.

“É uma prática extremamente perigosa, tanto do ponto de vista sanitário quanto ecológico”, afirma Amanda Padilha dos Santos, biomédica e mestre em Engenharia Biomédica.

O vídeo veio à tona justamente no momento em que o Litoral do Paraná registra um número histórico de encalhes de tartarugas-verdes. Só em julho de 2025, foram encontrados 314 animais mortos ou debilitados entre Guaratuba e Guaraqueçaba, um aumento de 502% em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram registrados 52 encalhes. Os dados são do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS), realizado no Paraná pela equipe do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (LEC-UFPR).

“Estamos diante de um cenário que exige atenção. As tartarugas-verdes são comuns na nossa região, especialmente em sua fase juvenil, e essa concentração de encalhes é reflexo direto das pressões que esses animais enfrentam no ambiente marinho”, afirma Camila Domit, coordenadora do PMP-BS/UFPR.

Comer carne de tartaruga encalhada pode levar à morte

Segundo a biomédica Amanda Padilha, consumir a carne desses animais em decomposição representa um risco de grande escala à saúde pública.

“Após a morte, a tartaruga entra em processo rápido de putrefação, acelerado pela exposição ao sol, ao sal e à água do mar. Isso favorece o crescimento de bactérias patogênicas como Salmonella spp. e Clostridium botulinum, que provocam intoxicações alimentares graves”, explica.

Um dos maiores perigos, de acordo com ela, é o chamado quelonitoxismo – uma intoxicação rara, mas potencialmente letal, causada por toxinas naturais presentes na carne de algumas tartarugas marinhas.

“Essas toxinas são produzidas por microrganismos ou acumuladas a partir da dieta do animal, permanecendo ativas mesmo após o cozimento. Os sintomas podem incluir náuseas, vômitos, diarreia intensa, dores abdominais, confusão mental, convulsões, arritmias e insuficiência respiratória. Não existe antídoto específico para o quelonitoxismo, e o tratamento é apenas de suporte, o que torna a prevenção essencial”, detalha a especialista.

O JB Litoral procurou a Prefeitura de Matinhos na tentativa de identificar a mulher filmada cortando a carne de uma tartaruga morta, mas, segundo a administração, não foi levantada a identificação ou qualquer informação sobre as condições sociais e o estado de saúde dela.

Assista ao vídeo da mulher que corta carne de tartaruga morta em Matinhos:

Espécie vulnerável à extinção

A tartaruga-verde (Chelonia mydas) é considerada residente temporária no Litoral do Paraná, quando busca alimento e abrigo. Na fase juvenil, ela se alimenta de peixes, lulas, algas e gramas marinhas. Quando adulta, pode atingir até 1,5 metro e pesar cerca de 230 kg, com dieta predominantemente herbívora.

A espécie está classificada como vulnerável à extinção no Paraná, conforme o Decreto Estadual nº 6.040/2024, e é protegida pela Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998).

“A ingestão de carne proveniente de espécimes mortos não apenas infringe a legislação vigente, como também acarreta impactos à conservação de espécies ameaçadas”, reforça Amanda.

Das 314 tartarugas-verdes encalhadas em julho no litoral do Paraná, apenas 5 chegaram com vida ao centro de reabilitação da UFPR.
Das 314 tartarugas-verdes encalhadas em julho no litoral do Paraná, apenas 5 chegaram com vida ao centro de reabilitação da UFPR.

Encalhes aumentam com o frio e a ação humana

Segundo pesquisadores, o aumento de encalhes em 2025 é resultado da combinação de fatores naturais com impactos causados por atividades humanas. Durante o inverno, frentes frias afetam a salinidade, temperatura da água, ventos e correntes marinhas, dificultando a locomoção e alimentação das tartarugas.

“As causas de mortalidade estão associadas a múltiplos fatores. Um animal debilitado por infecções, por exemplo, torna-se mais vulnerável a colisões em embarcações ou ao emalhe em redes. Esses fatores somados comprometem a saúde dos indivíduos e ampliam os riscos de encalhes”, explica o médico veterinário Fábio Henrique de Lima, do PMP-BS/UFPR.

Além disso, muitos dos animais encalhados apresentavam sinais de interação com resíduos sólidos, como plásticos.sentavam sinais de interação com resíduos sólidos, como plásticos.

Encalhes aumentaram 502% em julho de 2025 devido as condições climáticas e ações humanas
Encalhes aumentaram 502% em julho de 2025 devido as condições climáticas e ações humanas. Foto: Comunica Matinhos

Pescadores rebatem acusações

A repercussão do vídeo da mulher cortando carne de tartaruga reacendeu também uma velha polêmica no Litoral: a responsabilidade de pescadores pelos encalhes e mortes de animais marinhos. Especialistas alertam que parte das tartarugas encontradas mortas apresenta sinais de emalhe em redes de pesca, o que levanta suspeitas sobre práticas ilegais ou irregulares no entorno das baías.

A acusação, porém, foi rebatida por representantes da pesca artesanal. Segundo o presidente da Associação de Pescadores de Matinhos, Lopes Fabiano Santos, conhecido como Sapo, os profissionais do setor têm sido injustamente responsabilizados.

“Realmente é rede, mas não é de pescador profissional. É dessas em geral armadas no lagamar. Muita gente que nem é pescador fica armando esse tipo de rede para matar tainha. Nessas que caem as tartarugas que aparecem nas praias. Mas ressalto que não é o pescador profissional, até porque nós pescamos mais adiante, no mar”, afirma Sapo.

O uso indiscriminado de redes fixas em áreas sensíveis como o lagamar – zona de encontro de águas doces e salgadas e berçário natural da fauna marinha – é alvo constante de fiscalização por órgãos ambientais. A pesca com redes do tipo “espera” sem licença é proibida em diversas áreas do Litoral, especialmente onde há ocorrência de espécies ameaçadas.

Menos de 2% sobreviveu

Das 314 tartarugas encalhadas em julho, apenas cinco estavam vivas no momento do resgate, o equivalente a 1,59% do total. Elas foram encaminhadas ao Centro de Reabilitação, Despetrolização e Análise da Saúde da Fauna Marinha (CReD/UFPR), onde recebem atendimento clínico especializado.

“O trabalho de reabilitação não apenas salva a vida daqueles indivíduos, mas também contribui para o conhecimento científico e a conservação da biodiversidade marinha”, ressalta o médico veterinário Felipe Yoshio Fukumori.

“A reabilitação das tartarugas costuma ser mais lenta e delicada. Cada uma demanda um protocolo específico, com atenção ao seu histórico, condição corporal e resposta aos primeiros cuidados. Por isso, o acompanhamento diário é fundamental para garantir a recuperação completa e segura até o momento da soltura”, complementa.

Encontrou uma tartaruga encalhada? Saiba o que fazer

A orientação do LEC-UFPR é de que, ao encontrar um animal marinho encalhado, não se deve tocar e nem tentar devolvê-lo ao mar. Além disso, é essencial manter distância. O atendimento deve ser feito exclusivamente por equipes autorizadas.

“Cada atendimento segue protocolos técnicos que garantem o bem-estar dos animais e a segurança da população. O monitoramento é uma ferramenta poderosa que conecta ciência, conservação e compromisso ambiental”, explica Liana Rosa, gerente operacional do PMP-BS/LEC-UFPR.

As informações obtidas em campo são registradas no Sistema de Informação de Monitoramento da Biota Aquática (SIMBA), que apoia pesquisas científicas e políticas públicas.


Sobre

Jornalista, pós-graduado em Mídias Digitais, com passagem por veículos nacionais como CNN Brasil, Jovem Pan News e Record. Atuou em rádio, TV e internet, além de ter sido colunista de política no portal RIC.com.br.

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