Bebê de um ano morre com suspeita de meningite, em Matinhos; horas antes criança foi liberada da UPA


Por Redação JB Litoral Publicado 07/10/2025 às 12h12

Disseram que era só um vírus e eu saí com a minha filha morta, enrolada em um pano branco”. O relato emocionado feito ao JB Litoral é de Maria Vitória Gomes de Souza, 23 anos. Ela perdeu a filha, a pequena Zoe de Souza Fonseca, de apenas 1 ano e 4 meses, no último domingo (5). Maria Vitória mora em Curitiba e veio ao Litoral com a filha para passar o fim de semana na casa de uma amiga, em Matinhos. Mas o que seria um passeio feliz, com sol e mar, se transformou em pesadelo.

De acordo com a amiga, a manicure Chris Souza, que acompanhou toda a situação de perto, no fim da tarde de sábado (4), a criança começou a apresentar um quadro de febre e vômitos.

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A pequena Zoe, de 1 ano e 4 meses, morreu horas depois de começar a apresentar quadro de febre e vômitos. Foto: Arquivo pessoal

A Zoe vomitou duas vezes e a febre subiu, daí nós levamos ela para a UPA aqui de Matinhos. Quando chegamos lá, por volta das 20h, na triagem avaliaram os olhinhos dela e mediram a febre, mas não olharam a garganta”, disse em conversa com o JB Litoral.

Quando nos chamaram para o atendimento com a pediatra, a médica não levantou da cadeira, só olhou para a gente e para a Zoe e perguntou quais eram os sintomas. Falamos da febre e do vômito e ela passou dois remédios para isso, uma injeção em cada perninha. E disse para a gente ir para casa porque provavelmente seria uma virose, para irmos hidratando com água de coco e isotônico. Daí, depois de aplicarem a medicação, voltamos para casa”, detalhou Chris.

Piora rápida

Durante a madrugada o estado de saúde da bebê piorou, com a volta da febre e um novo sintoma: manchas escuras pelo corpo.

Eram 5 horas da manhã, mais ou menos, e a gente acordou com ela delirando, muita febre, e a gente já notou as manchas no corpo. Liguei quatro vezes para o Samu, até ser atendida, mas eles estavam sem ambulância naquele momento, porém abriram um chamado. Mas a Zoe estava muito mal, então consegui um Uber e cancelei a ambulância”, detalhou a amiga de Maria Vitória, que considerava a Zoe como sua sobrinha.

Ainda segundo a manicure, quando chegaram novamente à Unidade de Pronto atendimento, o estado da criança chamou a atenção da equipe.

Eles viram que era um estado grave por conta das manchas e da saturação dela, que estava em 33%, se eu não me engano. Os batimentos cardíacos dela também estavam bem fracos. Aí, eles colocaram um oxigênio e a gente foi para a ambulância, eu fui junto com a ambulância até o Hospital Regional, em Paranaguá. Chegando lá, ela teve parada respiratória, uma seguida da outra. E eles tentaram entubar ela, ficaram uma hora e meia, mais ou menos, tentando reanimar ela, tentando entubar para fazer o tratamento. Só que ela faleceu no procedimento, foi o que disseram para a gente”, relatou Chris.

Suspeita de meningite

De acordo com a amiga da família, na UPA só disseram que o quadro era grave, mas não informaram qual seria a doença da criança, apenas que se tratava de uma virose. Mas, no Hospital Regional do Litoral (HRL), teriam dito que se tratava de meningite.

No Regional disseram que era meningite, que já podiam ter entubado lá na UPA de Matinhos, para mandá-la já entubada e ser feito todo o tratamento no Hospital. Também disseram que eles podiam ter feito exames de sangue lá na UPA, da primeira vez que fomos, quando a neném chegou com 40 graus de febre, e não foi feito. Em vez disso, mandaram a gente para casa”, disse.

Zoe foi sepultada em Curitiba, na tarde desta segunda-feira (6).

A dor de uma mãe

Na manhã desta terça-feira (7), o JB Litoral também conversou com a mãe da criança.

Muito abalada, Maria Vitória relatou como foram os últimos momentos ao lado da sua única filha.

Minha filha não tinha nenhuma mancha no corpo, minha filha poderia ter sido salva, ela poderia examinar minha filha. Como que eu vou no hospital oito e pouco da noite, minha filha com febre de 40 graus, com dor, vomitando, eles só olham e mandam embora, gente, como isso? Às 5h da manhã, minha filha já estava cheia de manchas. Cada vez mais, estourava os vasinhos pelo corpo. O olho dela, a parte branca já estava estourando glândula de sangue, já estava ficando vermelho”, relatou.

Ao chegar na UPA pela segunda vez, Maria Vitória afirma que a possibilidade de virose foi dita novamente pela médica pediatra, mesmo diante da gravidade do caso.

Corremos para a UPA. Lá, com a Zoe já recebendo soro, adrenalina e outros medicamentos, aquela pediatra entrou na minha situação de novo e falou assim: ‘Calma, mãe, é só um vírusinho. Como um vírusinho, gente, como um vírusinho?’ Fomos de ambulância para Paranaguá, chegando lá, minha filha começou a virar para um lado, para um outro. Parecia uma convulsão, me pediram para sair da sala, para tentar entubar a minha filha”, afirmou a mãe.

Maria Vitória acredita que a filha foi vítima de negligência e pede justiça.

Desde que chegamos na UPA, pela segunda vez, até me dizerem que minha filha havia morrido, não demorou nem três horas. Minha filha morreu por negligência. Eu peguei minha filha mortinha enrolada num paninho branco, ela estava quentinha ainda. Eu falava que eu precisava mais dela do que ela de mim, eu precisava da minha filha. Pelo amor de Deus, a minha filha precisa de justiça”, completou.

O que diz a Prefeitura de Matinhos

Procurada, a Administração Municipal se manifestou por meio de nota. Segundo o documento, assinado pelo médico responsável técnico pela UPA de Matinhos, Diogo de França Souza Camargo, “todas as condutas foram adotadas conforme protocolos vigentes de atendimento em urgência e emergência pediátrica”.

O paciente foi atendido cerca de 30 minutos após a triagem pelo médico plantonista, que, após anamnese e exame físico, não identificou sinais de alarme clínico. A criança encontrava-se ativa, corada e responsiva, apresentando apenas febre e vômito — quadro compatível com condições clínicas leves comumente observadas em pacientes pediátricos na região litorânea. Diante do quadro apresentado, foi instituído tratamento sintomático com medicações para controle da febre e dos vômitos. O paciente permaneceu em observação na unidade até estabilização da temperatura, sendo então liberado com orientações à família sobre sinais de alerta e necessidade de retorno em caso de piora clínica”, afirma o médico.

Ainda conforme a nota, o quadro foi reavaliado quando Zoe voltou a ser atendida na UPA.

No dia 05 de outubro, por volta das 6h da manhã, a família retornou à unidade, relatando piora do quadro clínico. Na reavaliação, a criança apresentava rebaixamento do nível de consciência, hipoatividade e lesões cutâneas compatíveis com púrpura, configurando quadro sugestivo de agravamento infeccioso agudo”.

O documento ratifica que o protocolo foi seguido no primeiro atendimento, na noite de sábado (4).

Ressalta-se que, no primeiro atendimento, não havia indícios clínicos de gravidade, e todas as condutas foram adotadas conforme protocolos vigentes de atendimento em urgência e emergência pediátrica, com orientação adequada aos familiares sobre retorno em caso de piora”, finaliza a nota.

O JB Litoral também entrou em contato com a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) para saber o posicionamento oficial do HRL sobre o atendimento à criança e se está confirmado o óbito por meningite. A reportagem aguarda resposta da Secretaria.


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