Companheiro, descanse em paz!


Por Luiza Rampelotti Publicado 30/03/2022 às 11h17 Atualizado 17/02/2024 às 05h05

Gilberto Fernandes, 62 anos, foi um grande companheiro, assim como ele costumava chamar a todos, especialmente seus amigos. Fazer o obituário dele é diferente de fazer o de qualquer outra pessoa com quem não haja envolvimento emocional, é mil vezes mais doloroso.

Grande companheiro, pai amado, colecionador de amigos e, até mesmo, desafetos, já que era conhecido por suas críticas contundentes que desagradavam aos poderosos. Mas só quem o conhecia de verdade consegue dimensionar a importância de Gilberto Fernandes para todo o círculo que ele pertencia.

Jornalista autodidata, começou sua carreira no jornal O Imparcial. Sempre envolvido nos bastidores da política, decidiu ajudar alguns amigos a divulgar o resultado de suas ações, então auxiliou na criação do jornal impresso Folha de Paranaguá, de Ivan Bueno. Fez muito barulho, ajudou a eleger uns e derrubar outros. Depois, foi auxiliar na concepção e abertura do Folha do Litoral, de Joel Bonzatto, na época em que o jornal produzia reportagens e tecia comentários firmes, posicionados. Com uma personalidade destemida, por algumas vezes chegou a ser demitido por conta do seu trabalho crítico e em tom de cobrança, mas sempre voltava – era impossível ficar longe dele. Ao mesmo tempo, foi assessor parlamentar do então deputado estadual Waldir Leite. Porém, em uma dessas demissões, resolveu dar início ao próprio sonho: fundou o Jornal dos Bairros, que começou com um cunho comunitário, mas logo passou a falar com todos os públicos.

Sempre presente na área sindical e política, aprendeu muito sobre sindicatos e sobre Poder Público. Isso o tornou um especialista nos assuntos – especialista que aprendeu na prática, convivendo no dia a dia, observando, ouvindo, participando. Até hoje, seus conhecimentos sindicais e políticos eram requisitados pelos novatos – e não só por eles, mas por outros jornalistas que sabiam que tinham muito o que aprender com o companheiro Gil.

Voltando a falar sobre jornalismo, ele foi mentor de tantos… mesmo sem a técnica da universidade, ele tinha a prática da profissão para transmitir – coisa que ensino superior algum ensina. E, assim, se tornou mestre para vários profissionais que estavam dando início à faculdade, ou então já formados que precisavam viver o jornalismo de verdade. Comigo foi assim, nenhum banco de faculdade me ensinou o que Gilberto Fernandes ensinou. Como costumamos dizer no jornal: ele nos forjou no ferro e no amor.

No ferro e no amor porque quem conhece sabe a peça que ele foi. Difícil de reverter qualquer opinião que ele já tivesse formado e sempre firme em seus posicionamentos, mas muito mais coração do que razão – como qualquer pisciano. Se você tivesse conquistado sua amizade, saberia que eram amigos para qualquer momento, qualquer situação; mas se tivesse regado desafeto, poderia aguardar sua indiferença, desprezo e, até mesmo, as críticas mais duras.

Como jornalista sonhador – assim como todos os jornalistas -, transmitiu a mesma paixão para dois dos seis filhos. Jéssica e Roger foram os que começaram com ele no antigo Jornal dos Bairros, um auxiliando na parte comercial, outro realizando a diagramação. Mas só a filha persistiu na área e, anos depois, assumiu o jornal e o repaginou, transformando-o em JB Litoral. Mas isso só foi possível depois de uma longa estrada trilhada ao lado do pai, responsável por ensinar tudo o que ela sabe sobre o jornalismo.

Gilberto estava “aposentado” há cerca de três anos, mas nunca conseguiu deixar o jornalismo de lado, e nós, também, nunca permitimos. Como já citado antes, era ele o mestre dos mais variados assuntos, mas, principalmente, sindicalismo e política. Se havia alguma dúvida: “companheiro, me explica?”. E ele, com todo o brilho no olhar, amava ensinar e mostrar o quanto era indispensável. A gente sempre soube, Gil! Nunca houve dúvidas sobre o quanto você era fundamental. Agora, quem perde somos nós e todos aqueles que tiveram o prazer de conviver com o companheiro.

É dura demais a despedida, principalmente para quem o viu na semana passada bem, conversando, brincando e, depois, não viu mais. A notícia de sua partida choca, emudece, despedaça. Ex-esposa, seis filhos, sete netos, namorada, funcionários do JB Litoral, amigos, conhecidos – nenhum deles estava preparado para isso.

Gilberto Fernandes era diabético, há alguns anos já havia feito uma cirurgia de ponte safena e ponte mamária. Na quarta-feira passada (23), precisou fazer novamente, no Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul. O procedimento é de risco e, com a saúde já debilitada, Gil não resistiu ao pós-operatório e faleceu na manhã desta quarta-feira (30), 12 dias após completar 62 anos.

Ainda tinha muitos sonhos, falava em cursar Direito e advogar, se tornar professor de jornalismo, viajar para os Estados Unidos – depois de perder o medo de avião, claro -, ser prefeito de Paranaguá, a cidade na qual nasceu, viveu e amou. A partida precoce não fará com que seu nome e legado sejam esquecidos.

Fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas”. Até mais, companheiro!

O velório acontecerá nesta quinta-feira (31), das 07h30 às 10h30, na Capela do Cemitério Municipal Nossa Senhora do Carmo, em Paranaguá.

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