Cidades

“Passamos 30 anos procurando uma criança que estava em um saco plástico”, desabafa família de Leandro Bossi

Governo anunciou que restos mortais do menino de sete anos, desaparecido em 1992, em Guaratuba, foram identificados
Por Flávia Barros
12/06/2022 20:26 |
Atualizado em 20:38

Chegou ao fim, após 30 anos, a agonia – ­que ainda era acompanhada por esperança –da família de Leandro Bossi, dado como desaparecido desde 15 de fevereiro de 1992. O menino tinha apenas sete anos quando sumiu de casa, em Guaratuba, 50 dias antes do caso mais “famoso” sobre uma criança desaparecida no Estado, o de Evandro Ramos Caetano, então com seis anos. Os dois casos são cheios de idas e vindas. Mas no “Caso Evandro”, ainda que repleto de reviravoltas e os acusados sendo inocentados pela justiça após o reconhecimento da confissão mediante tortura, o corpo da criança foi encontrado e reconhecido dias depois que ele sumiu no caminho entre a casa da família e a escola. Já para os familiares de Leandro, a esperança era de que ele ainda estivesse vivo.  E que acabou na última sexta-feira (10), quando o governo do Paraná convocou uma coletiva de imprensa e anunciou que amostras de fragmentos ósseos foram enviadas para Brasília, onde foram examinadas por diversos métodos de análise de DNA e deram 99,99% de compatibilidade com a mãe de Leandro, Paulina Rudy Bossi. O caso havia sido arquivado há quase três décadas e as investigações foram retomadas pelo Ministério da Justiça no ano passado.

“Passamos 30 anos procurando uma criança que estava em um saco plástico”, desabafa família de Leandro Bossi, JB Litoral - Notícias de Paranaguá, Guaratuba, Morretes, Guaraqueçaba e litoral do Paraná
Em coletiva de imprensa, representantes do governo contaram que enviaram fragmentos de ossos e amostras de sangue de três mães de desaparecidos, entre elas a mãe de Leandro, Paulina Bossi; logo no primeiro fragmento analisado, a compatibilidade com o DNA de Paulina foi de 99,99%. Foto: Albari Rosa / AEN


DIVERGÊNCIAS


O JB Litoral teve acesso ao primeiro laudo que examinou a ossada encontrada, juntamente com as vestes de Leandro em um matagal de Guaratuba, em março de 1993, portanto, um ano e um mês após o desaparecimento do menino. Os restos mortais foram periciados no Instituto Médico Legal de Curitiba em abril de 1993. De acordo com o documento, tratava-se de uma ossada humana incompleta, misturada com terra, dentro de uma sacola plástica. A perícia atestava a ausência dos ossos pubianos, idade entre sete e oito anos, com o tempo de morte condizente com o desaparecimento da criança e o índice de Baudoin sugerindo ser do sexo masculino. Essa referência estabelece uma relação entre linhas da mandíbula e uma formação óssea na base do crânio. Mas, depois disso, a ossada e amostras de sangue dos pais de Leandro foram encaminhadas para Minas Gerais, onde o exame de DNA, feito naquele mesmo ano, deu incompatível e sugeria que os restos mortais eram de uma menina.

REVOLTA


Depois do anúncio de que os restos mortais de Leandro Bossi haviam sido identificados, mas sem a revelação por parte da polícia sobre onde e quando a ossada foi encontrada, ou se trata da mesma analisada 29 anos atrás, um dos irmãos do menino, por parte de pai, Lucas Steffen Bossi, que mora no Rio Grande do Sul, fez uma publicação em sua conta do Instagram, acompanhada de uma foto em que estão ele, o pai de ambos, João Bossi, morto em abril do ano passado, e a mãe de Lucas, Roseli Steffen.

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Após quatro anos do desaparecimento do filho, João Bossi caminhou de Guaratuba a Aparecida do Norte (SP), em 1996, levando uma cruz de madeira ilustrada com fotos de crianças desaparecidas no Paraná. Foto: Arquivo pessoal

Em 1996, meu pai, atordoado pelo desaparecimento do Leandro e com nenhum andamento nas investigações, foi a pé de Guaratuba/PR até Aparecida do Norte/SP, carregando consigo uma cruz de madeira que ele mesmo fez, onde colou imagens das crianças desaparecidas no Paraná até então. Essa imagem retrata quando minha mãe, me levando junto, foi encontrá-lo ao fim de sua jornada, recebemos a bênção e clamamos à Nossa Senhora. Por todos esses anos, desde então, meu pai nunca desistiu, até o fim de seus dias, e eu convivi todos os anos de minha vida vendo em seus olhos a tristeza da ausência que Leandro deixou em nossas vidas. Trinta anos se passaram, e hoje somos bombardeados com a notícia de que o Leandro nunca esteve desaparecido neste tempo, Leandro foi morto, mas por quem? Quem? Faz três décadas que já poderíamos ter tido um rumo diferente em nossas vidas, e fomos privados disso, fomos traídos pela justiça que sempre somos condicionados a confiar. Merecemos mais do que isso, eles devem pagar pelo que nos fizeram”, desabafou Lucas.


MÃE NÃO ACEITA, FAMÍLIA QUER RESPOSTAS


Atualmente a mãe de Leandro, Paulina Bossi, mora em Curitiba com a neta, filha do irmão do Leandro, Ademir, que morreu em 2022. Segundo a outra irmã de Leandro e Lucas, Neli Steffen Bossi, “Paulina não aceitou ainda que é o filho dela, ela diz ‘esse não é meu filho, meu filho não é esse osso”, contou durante conversa com o JB Litoral.

Neli, que mora em Guaratuba, fez um relato emocionado e carregado também de revolta. Ela detalhou o que a família viveu nesses 30 anos e que, para eles, os ossos que identificaram agora como sendo os de Leandro são os mesmos encontrados em 1993.

A gente não sabe direito como foi feito o exame, só sabe que era dessa ossada da suposta menina, encontrada em 1993, com a roupa do Leandro, identificada pela Paulina, até porque tinha uma cuequinha, com uma costura feita à mão por ela. Então, a investigação do meu irmão sempre ficou na sombra do Evandro. Estamos sim contentes e aliviados por sabermos onde ele está agora. Mas ainda estamos com uma sensação de revolta, porque passamos 30 anos procurando uma criança que estava em um saco plástico”.

Neli também lamenta que o pai tenha morrido sem saber o que aconteceu e onde estava Leandro. “A gente seguiu as nossas vidas, mas sempre com aquela sensação de que faltava alguma coisa, faltava uma resposta. Então nosso irmão não foi encontrado agora, foi encontrado anos atrás, poderíamos ter o enterrado há anos! O meu pai poderia ter o enterrado. Meu pai nunca teve um acompanhamento, um amparo da justiça, nem do município e nem do Estado, era tratado como louco. E agora, vão investigar? Não sabemos mais nada do caso, se foi reaberto ou não. Eu fico pensando como meu pai foi forte e como a Paulina está suportando isso, quando podia ter dito adeus ao seu filho anos atrás, mas agora vai receber um osso. Queremos uma resposta, por que demorou tantos anos para ser feito um novo exame de DNA? Só porque o caso ficou famoso em um documentário? O que aconteceu com ele? Onde estão as roupas encontradas com a ossada, estão preservadas? Eu gostaria de uma resposta e de uma ajuda para saber o que a gente pode fazer daqui para frente.  Meu pai sempre manteve a esperança de que ele estivesse vivo, de que ele tivesse sido sequestrado por uma quadrilha de tráfico de crianças. A gente queria saber onde ele estava, mas não dessa forma. Mesmo não tendo lembranças do Leandro, eu e meus irmãos convivemos com meu pai triste e amargurado, indo atrás de todas as pistas que ele conseguia, vivia cobrando respostas da justiça. Nunca deixou de todo mês de fevereiro colocar uma faixa na frente de casa perguntando ‘Onde está o meu filho Leandro Bossi?’ e nunca ninguém deu essa resposta para ele, pois era apenas o filho de um pescador. Justamente por sermos pessoas simples, que não tínhamos recursos, não conseguimos avançar. Meu pai era um pescador que não concluiu nem o ensino primário. Nós não sabíamos dessa nova investigação, apenas que meu pai foi entrevistado para o documentário e que no final a delegada falou que iria investigar. Mas sempre quisemos respostas, por que quando encontraram aquela ossada nunca procuraram saber de quem eram aqueles ossos, supostamente de uma menina? Simplesmente arquivaram e os ossos nem sabemos para onde foram”, disse ao JB Litoral.

“Passamos 30 anos procurando uma criança que estava em um saco plástico”, desabafa família de Leandro Bossi, JB Litoral - Notícias de Paranaguá, Guaratuba, Morretes, Guaraqueçaba e litoral do Paraná
Até 2021, último fevereiro vivido pelo pai de Leandro, que morreu em abril do ano passado, todo 15/02 era dia do pescador ir para a frente de casa, em Guaratuba, e cobrar respostas pelo desaparecimento do menino. Foto: arquivo pessoal

FICHA NÃO CAIU


Neli também contou que a família, a exemplo da imprensa, ficou sem os detalhes. “Fomos pegos de surpresa com a notícia. Também soubemos que, no ano passado, coletaram sangue da Paulina e do Ademir, irmão de pai e mãe do Leandro, e agora informaram desse resultado, mas não explicaram direito, então a gente ainda está assimilando tudo isso”, finalizou.