Donos de clínica onde mulheres eram mantidas em cárcere privado têm outro estabelecimento com histórico de maus tratos


Por Redação Publicado 31/03/2025 às 19h06

O Paraná começou a última semana em choque com uma notícia vinda de Antonina. Uma clínica de reabilitação exclusiva para o tratamento de mulheres foi alvo de uma investigação da Polícia Civil do Paraná (PCPR). No local, as pacientes eram mantidas em situação de cárcere privado. Na segunda-feira (24), cinco pacientes foram resgatadas e o gerente da clínica foi preso em flagrante. O JB Litoral teve acesso ao depoimento de uma das vítimas. A jovem, de 22 anos, é filha da prefeita de uma cidade paranaense que fica a 350 quilômetros de Antonina e relatou à polícia que era mantida no chamado “quarto zero” da Clínica Adonai Centro Terapêutico (Adonai Femme), que fica na Ponta da Pita.

O chamado quarto zero era uma espécie de garagem adaptada para manter pacientes que desobedeciam trancadas, segundo denúncias recebidas pela PCPR. Foto: Divulgação
O chamado quarto zero era uma espécie de garagem adaptada para manter pacientes que desobedeciam trancadas, segundo denúncias recebidas pela PCPR. Foto: Divulgação

Eu fico de um a três dias seguidos no quarto, quarto fechado. Agora que trouxeram o ventiladorzinho de tanto eu implorar”, disse a paciente à polícia.

A jovem também relatou que tinha que fazer as necessidades fisiológicas dentro de baldes. “Fazia lá dentro do quarto, tinha um baldinho, eu fazia xixi e cocô lá dentro. E daí eu limpava com o edredom da cama”, contou.

A vítima também relatou que chegava a ficar com braços e pernas imobilizados.

Algemaram. Eu tenho marcas aqui porque me algemaram os dois braços e amarraram as duas pernas. Amarraram com força as duas pernas e não consegui nem dormir. Também me deram bastante remédio, eu nem sei o que eu tomei. Só sei que foi um copinho com vários comprimidos macerados e me fizeram engolir”, detalhou a jovem.

Só sei que estou passando por uma coisa que eu nunca imaginei que passaria na minha vida”, completou. Ela confirmou que era imobilizada pelo gerente do estabelecimento, que foi preso. A polícia encontrou algemas dentro do veículo utilizado pelo gestor, que estava no pátio da clínica.

CONDIÇÕES DEGRADANTES EM ESPAÇO IRREGULAR

Segundo o coordenador da Vigilância e Saúde de Antonina, Carlos Eduardo de Abreu Calixto, o quarto onde a jovem estava trancada não consta na descrição de funcionamento do estabelecimento e estava trancado por fora com um cadeado.

As condições desse quarto extremamente quente, numa região como a nossa, que chega às temperaturas superiores a 40 graus. Nos dias mais quentes, provavelmente a temperatura interna daquele quarto passa dos 60 graus, que a princípio chega a ser incompatível com a garantia de vida, principalmente se não houver um fornecimento constante de água. Segundo as pacientes, elas eram mantidas em cárcere para punição de algo que a instituição não concordasse”, disse o coordenador, que acompanhou a PCPR na fiscalização que terminou com 5 das 21 pacientes resgatadas.

A jovem de 22 anos e as outras quatro estavam com documentação irregular, onde não havia o termo de consentimento para a internação assinado por elas ou por algum responsável.

O ex-secretário de Saúde de Antonina, Odileno Garcia, que é técnico sanitarista da Prefeitura, também acompanhou a fiscalização em conjunto com a polícia. Segundo depoimento dele, em condição de testemunha, algumas outras irregularidades foram encontradas.

Antes da vistoria tinha a licença sanitária, estava habilitado a funcionar, porém, encontramos algumas irregularidades, quando estivemos presencialmente, como medicamentos fora da área que era para estar e irregularidades nas documentações do internamento de pacientes”, afirmou.

DESDOBRAMENTOS

Dois dias depois, na última quarta-feira (26), outras 10 pacientes foram resgatadas e mais uma pessoa foi presa, o sócio administrador da clínica. De acordo com a Polícia Civil, em nova diligência, motivada por informações adicionais, a equipe policial constatou a presença de mais vítimas internadas irregularmente.

Conforme o delegado da PCPR Emmanuel Lucas Soares, o responsável pela clínica foi autuado por manter as pacientes sem atender aos requisitos legais necessários, configurando o crime de cárcere privado.

As investigações revelaram que, embora as pacientes não estivessem confinadas em ambientes fechados ou em condições degradantes no momento da segunda abordagem, suas internações também não foram comunicadas ao Ministério Público, como exige a legislação.

O Ministério Público do Paraná acompanhou a operação, requisitou documentos da clínica e emitiu uma recomendação para sua interdição, além de solicitar judicialmente a suspensão das atividades”, explicou o delegado.

As vítimas, que foram resgatadas com o apoio da Assistência Social de Antonina, passaram por acolhimento inicial e começaram o processo de reintegração com suas famílias após acompanhamento médico e psicossocial.

JÁ ESTÃO SOLTOS

Porém, mesmo com o pedido do Ministério Público, para converter a prisão do gerente da clínica em preventiva, tanto o funcionário preso na segunda-feira quanto o sócio administrador detido na quarta foram soltos mediante pagamento de fiança arbitrada pela Justiça, na última sexta-feira (28).

HISTÓRICO

Os proprietários da clínica em Antonina são os responsáveis pela clínica Líber, em Pontal do Paraná. O estabelecimento também já foi alvo de denúncias de maus tratos e cárcere privado. Na ocasião, em abril de 2023, o caso foi noticiado pelo JB Litoral, quando seis pacientes conseguiram se rebelar e o gerente chamou a polícia. No local, condições insalubres foram encontradas pelos agentes da segurança pública, como fezes espalhadas em alguns quartos, que também eram trancados, e com paciente ferido e algemado há vários dias.

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