Jovem que matou namorado PM fala ao JB Litoral: “Se eu não tivesse me defendido, estaria morta”


Por Maisy Pires Publicado 21/03/2025 às 12h03

Após passar três meses presa, Giovanna Volcov, de 29 anos, acusada da morte do policial militar Marcos Aurélio dos Santos, dentro da casa dela, em Paranaguá, recebeu a liberdade provisória na última quarta-feira (19). Com isso, nesta sexta-feira (21), ela rompeu o silêncio e expôs o drama que viveu em um relacionamento abusivo.

Giovana mata PM
Giovanna atirou contra Marcos dentro do quarto dela. (Foto: JB Litoral/reprodução)

Giovanna e seus advogados receberam a equipe do JB Litoral em sua casa, onde aconteceu o crime, no dia 23 de dezembro de 2024. Durante a entrevista, ela confessou ter atirado contra o policial, alegando que sofria um relacionamento abusivo e que foi estuprada na noite do ocorrido. Além disso, seu advogado, Felipe Strapasson, disse que a jovem agiu em legítima defesa e foi vítima de anos de violência psicológica e física.

Os meses na prisão

“Aquilo lá é um inferno, nem para o meu pior inimigo eu desejaria. Quando fui presa, fui muito maltratada pelos policiais da penitenciária e por todos no local. Ninguém quis me ouvir, ninguém perguntou o que realmente aconteceu. Assim que cheguei à unidade prisional, me disseram: ‘Se te matarem, o problema é seu’”, relata.

Ela descreveu as condições desumanas na cadeia. “A comida, muitas vezes, estava estragada, não havia remédios, e o ambiente era opressor. Por eu não ter antecedentes criminais, sofri ainda mais com a hostilidade das outras detentas. Passei por momentos muito difíceis ali dentro.”

O dia do crime

No dia 23 de dezembro de 2024, Giovanna afirma que pediu para Marcos não ir até sua casa, pois era aniversário de sua mãe e ela queria evitar conflitos. “Sempre que ele vinha alcoolizado, acontecia alguma briga, uma discussão, um incômodo para minha mãe e para o meu filho”, conta.

No entanto, o policial não respeitou sua vontade. “Ele apareceu, abriu o portão, entrou à força e me empurrou. Logo depois, tirou toda a roupa e começou a me agredir verbalmente, me xingando, dizendo que eu não valia nada e que as amantes dele eram melhores do que eu.”

Ela relata ainda que foi violentada. “Como estava alcoolizado e não conseguia ereção, ele me estuprou com os dedos. A violência foi extrema. Eu perdi a cabeça. Consegui me desvencilhar, peguei a arma e disparei. Ele estava acordado, olhou para mim, e eu disse: ‘Eu não aguento mais’. Durante seis anos, vivi esse relacionamento abusivo, e naquele momento, não aguentei mais.”

Anos de abuso e humilhações

Segundo Giovanna, o relacionamento com Marcos se tornou um ciclo de violência. “No início, ele era uma pessoa boa. Ele incentivava meus estudos, parecia um homem correto. Mas, com o tempo, ele foi mudando, ou melhor, revelando quem realmente era. Começou a me xingar, a ser agressivo, e todos ao nosso redor sabiam disso. Minhas amigas presenciaram, os amigos dele também. Muitas vezes, ele me humilhava publicamente.”

Ela conta que fez de tudo para tentar ajudá-lo. “Fui atrás de psicólogos, de igrejas, achando que ele poderia mudar. Mas ele só piorou. A própria mãe dele chegou a mandar uma mensagem para a minha mãe, alertando sobre quem ele era. Quando ele entrou para a polícia, ficou ainda pior. O poder subiu à cabeça, e ele se tornou um monstro.”

A defesa de Giovanna

O advogado da jovem, que acompanha o caso desde o início em conjunto com a doutora Aline Vasconcelos, reforça que ela agiu em legítima defesa. “A Giovana foi vítima de violência física e psicológica por anos. O que aconteceu naquela noite foi um reflexo de todo o sofrimento que ela passou.”

Giovana e advogados
Giovanna e seus advogadas Felipe Strapasson e Aline Vasconcelos. (Foto: JB Litoral).

Segundo a defesa, há provas e testemunhos que corroboram a versão de Giovanna. “Ela chamou socorro imediatamente, procurou ajuda, demonstrou desespero. Se fosse premeditado, seu comportamento seria diferente. Ela tem um histórico de vítima, e é isso que estamos provando no processo.”

Planos para o futuro

Mãe de um menino autista não verbal, ela falou sobre o seu passado e os planos para o futuro. “Eu havia largado o curso de Direito para estudar Psicologia e entender melhor o transtorno do meu filho. Trabalhava em uma escola com crianças e estava tentando construir uma vida tranquila. Agora, quero retomar meus estudos e ajudar outras mulheres que passaram pelo que eu passei.”

Apesar do trauma, afirma que não tinha outra escolha. “Muitas mulheres passam por isso, mas nem todas têm a chance de se defender. Se eu não tivesse usado a arma dele, provavelmente hoje eu não estaria aqui para contar minha história”, completou.


Sobre

Jornalista formada pela Universidade Tuiuti do Paraná, com pós-graduação em Comunicação e Oratória, atua há mais de 10 anos na área, com experiência em portais, televisão, rádio e assessoria de imprensa. Atualmente, é editora-chefe do JB Litoral, onde lidera a produção de conteúdo com foco em informação de qualidade e responsabilidade.

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