“Você pegou o piá errado”: adolescente é agredido por engano e mãe denuncia ‘justiçamento’
Um adolescente de 16 anos foi agredido em frente ao Colégio Estadual Alberto Gomes Veiga, em Paranaguá, após ser confundido com outro jovem. O caso ocorreu na última segunda-feira (2) e gerou forte comoção nas redes sociais após o relato da mãe da vítima, a jornalista Paula Martins, moradora da cidade.
Segundo ela, o filho estava no local apenas para entregar um carregador de celular a um amigo. “Ele me avisou que iria até o colégio levar um carregador para um colega que antes estudava com ele em outra instituição. Foi com meu sobrinho, primo dele, de 17 anos. Os dois estavam ali, parados em suas bicicletas, esperando o sinal bater”, conta.

Nesse momento, dois homens se aproximaram: um adolescente, que foi o autor da agressão, e o próprio pai dele. Sem qualquer abordagem ou questionamento prévio, o jovem agressor desferiu um soco no rosto do adolescente, que acabou caindo no chão. “A força foi tanta que ele caiu, bateu a cabeça no muro, escorregou a mão, caiu da bicicleta. E o rapaz continuou batendo nele”, relata Paula.
A mãe afirma que a agressão aconteceu sob o olhar do pai do agressor, que só interveio quando percebeu que o filho havia atacado a pessoa errada. “Foi quando ele disse: ‘O uniforme é do Dom Bosco, você pegou o piá errado’.”
Ainda no chão, o adolescente agredido implorou para que parassem. “Meu filho disse: ‘Não me machuque, leva meu celular, leva minha bicicleta’. Ele achou que era um assalto, não entendeu nada. Foi agredido sem chance de se defender”, desabafa a mãe.

Paula chegou ao local logo após o ataque. “Ele me ligou. Quando cheguei, vi meu filho machucado e o homem ao lado do rapaz. Perguntei quem era e ele respondeu: ‘Sou o pai dele’. A situação ficou ainda mais grave para mim. O pai não apenas presenciou a agressão, como validou e participou disso.”
Segundo o relato da mãe, os agressores estavam saindo da delegacia, onde haviam registrado um boletim de ocorrência relacionado a uma situação anterior envolvendo o jovem agressor. “Eles estavam a caminho do IML (Instituto Médico Legal) para fazer exame de corpo de delito, quando viram meu filho de bicicleta e o rapaz disse que era ele. Sem confirmar a identidade, partiram para a agressão.”
A Guarda Civil Municipal foi acionada pelo primo da vítima. Uma viatura que passava foi parada e prestou atendimento imediato. “Quando me perguntaram se eu queria representar criminalmente, disse que sim. Como mãe e cidadã, não poderia agir de outra forma.”
Banalização da violência
Paula afirma que está levando o caso adiante por princípios. “Se eu ensino para o meu filho que ações têm consequências, preciso mostrar que quem age de forma violenta também deve responder por isso. Não posso deixar que ele pense que isso é normal.”
Ela também faz um alerta sobre a crescente banalização da violência. “Estamos naturalizando atitudes violentas. Esse rapaz saiu da delegacia e, em vez de esperar a Justiça, decidiu fazer justiça com as próprias mãos — e ainda com o apoio do pai. Isso não é justiça, é justiçamento.”
Para a jornalista, o episódio poderia ter terminado de forma ainda mais trágica. “Graças a Deus que o meu filho está bem, mas ele bateu a cabeça com força. E se esse agressor estivesse armado? Ele nem perguntou o nome, nem confirmou quem era. Só agrediu. Isso precisa ser discutido: que tipo de sociedade estamos construindo quando a violência vira a primeira resposta?”
Segundo Paula, o agressor foi preso em flagrante e a família aguarda o desdobramento das investigações.
