Com ônibus precários e evasão crescente, audiência expõe falhas no transporte de universitários no Litoral


Por Redação JB Litoral Publicado 16/05/2025 às 12h00

A precariedade no transporte universitário no Litoral do Paraná foi tema de uma audiência pública realizada na noite de quarta-feira (14), no Plenarinho da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep-PR). Professores, estudantes e gestores municipais participaram do encontro, proposto pela deputada estadual Ana Júlia Ribeiro (PT), que teve como foco os desafios enfrentados por alunos que dependem de transporte para frequentar instituições de ensino superior na região.

AUDIENCIA PUBLICA TRANSPORTE UNIVERSITARIO FOTO DIOGO MONTEIRO JB LITORAL 14.05 (5 (11)
Audiência Pública reuniu estudantes, gestores municipais e representantes das universidades. (Diogo Monteiro/JB Litoral).

Apesar da série de relatos e da gravidade dos casos apresentados, a audiência terminou sem a definição de nenhuma ação concreta para enfrentar o problema, que afeta diretamente a permanência de estudantes nas universidades.

Relatos de abandono

Heloise Magno, estudante de Administração Pública na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Matinhos, e fundadora do movimento Quero Transporte, relatou como os universitários precisam lidar com o transporte improvisado, falta de vagas e a incerteza da continuidade do serviço.  

“Eu criei esse movimento em junho do ano passado junto com alguns colegas. Nós tínhamos um transporte em Paranaguá, cedido pela Prefeitura, mas com uma limitação de vagas, porque era um transporte para crianças. Era um ônibus que era da secretaria de Cultura. Com a troca de gestão, nós ficamos dois dias sem ir à aula, porque nós não tínhamos transporte. Então, foi emprestado um ônibus para que nós pudéssemos voltar a frequentar”, contou a jovem

Ainda de acordo com Heloise, cerca de 40 alunos dos cursos noturnos de Matinhos estão sem vagas. “Os de cursos diurnos não têm o transporte”, complementou.

Luis Victor Morais, recém-graduado em Administração pela Unespar, descreveu o desgaste diário que enfrentava para estudar, partindo de Guaratuba rumo ao Campus Paranaguá, separados por 50 km.

“Minhas aulas acabavam 22h30. Eu ficava até às 23h10 na rodoviária e chegava 1h30 no ferry boat. Se ele não estivesse lá, levaria mais 40 minutos para chegar em casa”, disse.

A precariedade influencia na evasão dos estudantes

Já Karyn Christyny Ferreira Alves Gomes, aluna de Ciências Sociais do IFPR, em Paranaguá, contou que sua turma passou de 40 para apenas 10 alunos no intervalo de um ano.

“A principal causa é a dificuldade ou a impossibilidade de conseguir estudar sem transporte adequado”, desabafou.

A estudante, que tem deficiência oculta, detalhou os obstáculos que enfrenta no trajeto.

“Preciso pegar três ônibus para chegar na aula às 19h. Na volta, saio às 22h15. O ônibus do campus só sai às 22h50. Chego ao terminal de Paranaguá às 23h45. O que me levaria para casa já partiu às 23h35. Fico sem opção: dependo de caronas, aplicativos ou preciso caminhar sozinha”, disse.

Números e ausência de políticas públicas

Vanessa Marion Andreoli, diretora do Setor Litoral da UFPR, em Matinhos, destacou que a precariedade no transporte é um dos principais motivos da evasão escolar na instituição. Segundo ela, aproximadamente mil estudantes de sete municípios da região estão matriculados na UFPR Litoral.

VANESSA AUDIENCIA PUBLICA TRANSPORTE UNIVERSITARIO FOTO DIOGO MONTEIRO JB LITORAL 14.05 (2)
Vanessa destaca que a precariedade no transporte é um dos principais motivos da evasão escolar na instituição. Foto: Diogo Monteiro/JB Litoral

A diretora reforçou que muitos estudantes do litoral, cuja média de IDH é inferior à do restante do estado, não têm condições de custear vans escolares ou transporte próprio.

A distribuição dos universitários, segundo Vanessa, é a seguinte:

  • Paranaguá: 140 estudantes
  • Antonina: 40
  • Morretes: 25
  • Matinhos: 427
  • Guaratuba: 46
  • Pontal do Paraná: 113
  • Guaraqueçaba: 3

Apesar da demanda, apenas três municípios contam com estratégias de transporte universitário. Paranaguá possui o programa Tarifa Zero, mas não oferece ações específicas para todos os estudantes universitários. Pontal do Paraná isenta o custo da passagem em ônibus intermunicipais. Já Matinhos e Antonina disponibilizam ônibus dedicados aos alunos.

A secretária de Educação de Matinhos, Célia Amaral, informou que a prefeitura contratou uma empresa terceirizada em janeiro para fazer o transporte até o Campus UFPR Litoral.

“Cerca de 11 ônibus realizam o serviço. Precisamos que todos os municípios adotem estratégias assim, para ajudar a atender a demanda”, destacou.

Em Guaratuba, a situação é crítica. Segundo Paulina Jagher Muniz, diretora da secretaria de Educação, o único ônibus destinado a universitários foi redirecionado para atender estudantes do ensino básico rural após o fim de uma licitação.

“Até o momento não temos esse ônibus disponível. Estamos agora em fase de licitação, mas é tudo muito moroso”, explicou.

Luis Fernando Roveda, vice-diretor do Campus da Unespar em Paranaguá, classificou o problema como crônico.

“Sempre temos alguma cidade sem ônibus e alunos que não conseguem chegar à universidade por falta de transporte público”, disse.

Consórcio intermunicipal é sugerido como solução

Diante da ausência de uma legislação clara que defina a responsabilidade pelo transporte universitário — se municipal, estadual ou federal —, o pró-reitor de Pertencimento e Políticas de Permanência Estudantil da UFPR, André Vinicius Martinez Gonçalves, sugeriu a criação de um consórcio intermunicipal para gerir o serviço entre as cidades do litoral.

A proposta busca garantir a continuidade do transporte, independentemente de trocas de gestão ou encerramentos de contratos.

DEPUTADA ANA JULIA AUDIENCIA PUBLICA TRANSPORTE UNIVERSITARIO FOTO DIOGO MONTEIRO JB LITORAL 14.05 (5)
“Ninguém cuida do problema”, diz deputada. Foto: Diogo Monteiro/JB Litoral.

A deputada Ana Júlia destacou a urgência do tema e cobrou responsabilização por parte do poder público.

“Como o ensino superior não é considerado membro do currículo básico, o transporte acaba sem responsável definido. Nem governo federal, nem estadual, nem municipal. Ninguém cuida do problema”, denunciou.


Sobre

Trabalhamos constantemente para apresentar a notícia que você precisa saber.

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *