Exemplo da mãe, vida como doméstica e rifas: conheça as histórias das vereadoras de Morretes
Três dos onze representantes do povo na Câmara Municipal de Morretes são mulheres: Samira da Saúde (PSD), Silvia Stopasol (Solidariedade) e Taninha da Luz (PSD). Todas estrearam este ano na função de vereadoras, apesar de já possuírem longas trajetórias nos bastidores da política ou dentro das comunidades.
EXEMPLO MATERNO
Samira da Saúde (PSD), 49 anos, se emociona ao falar sobre a Câmara. “Minha mãe foi velada aqui. Ela era política”, relata. A mãe, Tânia Maria Choinski, conhecida como Tânia Cigana, é o grande exemplo da vereadora.
“Minha mãe fechou a Prefeitura. Foi na época do prefeito Julio Salomão. Ele ficou alguns meses sem pagar os funcionários, e minha mãe se indignou. Ela foi até a Assembleia [Legislativa do Paraná]”, conta.

Samira se refere ao episódio ocorrido em junho de 1996, que levou ao afastamento do então prefeito Julio Salomão. Ele foi acusado de improbidade administrativa, peculato e irregularidades em licitações
Inclusive, seria Tânia a candidata à vereadora, mas com o falecimento dela em 2023, aos 67 anos, a filha assumiu a função.
ÔNIBUS QUEBRADO
Servidora há 27 anos, Samira chegou em Morretes quando tinha 17 anos. “Nós morávamos em Florianópolis. Uma vez, em uma viagem, o ônibus em que minha mãe estava quebrou aqui em Morretes. Ela voltou para Florianópolis, vendeu tudo e a gente se mudou para cá”, explica.
Com destaque na atuação na área da saúde, ela reconhece a importância da representação feminina em cargos de liderança.
“Nós já pulamos um degrau grande, já somos em três mulheres aqui na Câmara. Mas o machismo ainda é muito presente. Muitas vezes, ao conversar com mulheres da zona rural, escuto: ‘preciso ver com meu marido’. Eu sempre digo: ‘você é mantenedora da casa. Trabalha mais que ele. Ajuda na roça, cuida da casa e dos filhos’. Essa postura tem que mudar”, afirma.
SÓ PODIA COMER OS RESTOS DA FAMÍLIA
Mas não é somente Samira que tem “sangue no olho” quando o assunto é a política morretense. Silvia Stopasol (Solidariedade), 47 anos, tem uma história marcada por bastante luta. Natural de Manoel Ribas, no interior do Paraná, aos 12 anos foi para Palmital trabalhar como doméstica.

“Um ano antes do meu pai falecer, nós fomos para Palmital. Em 1989, tínhamos perdido tudo da nossa plantação, por causa de uma chuva forte de granizo. Quando meu pai morreu, a casa estava coberta com lona”, explica.
Obrigada a buscar emprego para ajudar nas despesas da casa, Silvia ainda tinha que se sacrificar para conseguir estudar. “Eu trabalhava de segunda a sexta e estudava à noite. No final de semana, pegava as filhas da minha patroa e levava para a casa da minha mãe. Tudo de charrete”, comenta.
Apesar de tanto esforço pela família, era tratada com bastante discriminação. “Eu cozinhava, mas só podia comer os restos da família. Não podia comer queijo e presunto da geladeira. Eu morria de vontade”, conta.
Para fugir da situação precária de trabalho, Silvia se mudou para Paranaguá, com a vizinha da antiga patroa. Mas a situação não foi muito diferente. “Com 16 anos, eu tinha que lavar, passar e cuidar para quase dez pessoas”, explica.
POLÍTICA EM GUARAQUEÇABA
Ela trabalhou exaustivamente até os 20 anos, quando se casou e se mudou para Guaraqueçaba.
“Eu comecei minha trajetória política em Guaraqueçaba. Lá, trabalhei na gestão do Pirambeira (prefeito Antônio Felício Ramos Filho), depois do Osmar (Onorato Rodrigues) e do (prefeito) Ariad. Com este último, atuei na secretaria”, conta.
No final de 2005, após o divórcio do primeiro marido, decidiu se mudar para Morretes. “O prefeito Helder [Teófilo dos Santos] me chamou para trabalhar na Prefeitura. Foi quando instalei a Sala do Empreendedor com o Sebrae. Pelo meu trabalho, fui convidada para ser diretora na Secretaria de Turismo, onde organizei a Festa Feira”, relembra.
Mas a aparente tranquilidade na vida de Silvia sofreu uma reviravolta. Aos 40 anos, grávida de cinco meses, Silvia foi exonerada do cargo que tinha na Administração Municipal. Só voltou à política quatro anos depois, quando disputou uma vaga na Câmara.
“Fiquei de fora por três votos, por causa da coligação. Mas confesso que na época nem trabalhei para mim”, admite. Logo depois, acabou assumindo a Secretaria de Agricultura.
A candidatura, no entanto, não foi sem mais uma batalha. Ela enfrentou resistência dentro de casa para se tornar vereadora.
“Para entrar na vida pública, travei uma grande batalha dentro de casa. Meu marido falava que a política era suja, mas sempre acreditei que era possível mudar essa imagem, fazer diferente e construir uma política voltada para as novas gerações”, diz.
Empresária, Silvia defende o fortalecimento dos pequenos produtores e a geração de empregos no município.
“Minha filha se formou e trabalha em Antonina porque não há oportunidades para os jovens aqui. Vejo pais pagando cursos para os filhos, mas eles precisam sair da cidade. Precisamos incentivar a agricultura familiar, resgatar as farinheiras que já tivemos. O potencial é grande”, ressalta.
DE OLHO NOS BAIRROS AFASTADOS
Moradora de Morretes desde um ano de idade, Taninha da Luz ingressou recentemente na política, mas sempre esteve envolvida em ações sociais.

“Antes, não tinha nenhuma ligação com esse universo, mas sempre ajudei as pessoas. Há mais de oito anos organizo bingos, rifas e outras iniciativas para apoiar quem precisa. Foi essa vontade de ajudar mais que me motivou a entrar na política. A decisão veio no ano passado, e até então nunca havia pensado nisso”, relata.
Orgulhosa por ter construído sua vida no bairro Novo Mundo, a vereadora tem como prioridade o desenvolvimento dos bairros mais afastados.
“Quero que esses bairros sejam protagonistas, que formemos comunidades unidas e fortalecidas. O patrolamento e a roçada não devem ser motivo de cobrança constante, mas sim parte de um cuidado contínuo e essencial. Além disso, a saúde precisa chegar de forma mais eficaz e acessível, com médicos atendendo regularmente”, defende.
Sobre os desafios da mulher na política, Taninha destaca a sobrecarga feminina.
“Enfrentamos a desigualdade de representação, a violência política de gênero e a falta de apoio institucional. Além disso, lidamos com a dupla jornada, equilibrando a vida política com as responsabilidades familiares, e temos dificuldades no acesso a recursos financeiros para campanhas. Esses desafios tornam mais difícil a participação e ascensão das mulheres na política”, conclui
