Palestra na UFPR termina em intervenção policial e acusações de violência


Por Brayan Valêncio Publicado 10/09/2025 às 01h24

O prédio histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR) foi palco de uma grande confusão na noite desta terça-feira (9). O episódio ocorreu antes do início de uma palestra no Salão Nobre da Faculdade de Direito, cujo tema seria “O STF e a Interpretação Constitucional”. O evento reuniria nomes ligados à direita curitibana, como os vereadores Guilherme Kilter (Novo) e o advogado Jeffrey Chiquini.

UFPR
Palestra ouviria militantes de direita sobre as últimas ações do Supremo Tribunal Federal (UFPR). Fotos: Reprodução/ Redes Sociais.

O jurista é ligado ao partido Novo e atuou no Supremo Tribunal Federal (STF) na defesa de Filipe Martins, ex-assessor para assuntos internacionais de Jair Bolsonaro (PL), e de Rodrigo Bezerra, conhecido como “Kid Preto”, na ação que investiga a tentativa de golpe de Estado. Chiquini também mantém forte presença nas redes sociais e já se lançou pré-candidato a deputado nas eleições de 2026, com apoio do ex-procurador Deltan Dallagnol.

Guilherme Kilter foi o segundo vereador mais votado na capital nas eleições de 2024, é afilhado político de Deltan Dallagnol, recebeu apoio do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e do eleitorado evangélico, especialmente da Primeira Igreja Batista de Curitiba (PIB). É o vereador mais jovem da atual legislatura, também com forte atuação nas redes sociais, e deve concorrer a deputado em 2026.

A palestra ocorreria no mesmo dia em que o Supremo Tribunal Federal (STF) iniciou o julgamento do chamado “núcleo crucial da trama golpista” que pode resultar na condenação de Bolsonaro e de outros sete aliados, acusados de envolvimento em uma tentativa de golpe após as eleições presidenciais de 2022. O julgamento está 2 a 0 pela condenação – a um voto de formar maioria.

Ocupação e confronto

Antes do início do evento, estudantes e militantes ocuparam o Salão Nobre, gritando palavras de ordem e impedindo a realização do debate. A situação rapidamente escalou para um confronto, que terminou com a intervenção da Polícia Militar (PM) e da Guarda Civil Municipal (GCM). Manifestantes relataram que a ação policial incluiu bombas, gás de pimenta e balas de borracha dentro do prédio, com informações sobre um militante detido e uma jovem baleada.

Imagens publicadas por estudantes destacam a desproporcionalidade e abuso de autoridade por parte dos agentes de segurança. Não houve manifestação da Secretaria de Segurança Pública sobre o ocorrido.

Os dois lados

Os vereadores Guilherme Kilter e o advogado Jeffrey Chiquini declararam ter sido vítimas de agressão no episódio.

A educação já era minha principal pauta, mas a partir de hoje minha missão de vida na política é recuperar as universidades públicas sequestradas pelos comunistas. Alô, UFPR! Nós voltaremos. O Brasil é nosso, e a esperança somos nós”, publicou Kilter em uma rede social. 

Chiquini fez um relato do que chamou de resgate. “Fui expulso da UFPR. A esquerda sequestrou as universidades federais públicas. Fui convidado para palestrar no curso de Direito da Universidade Federal do Paraná sobre Estado Democrático de Direito, mas militantes de esquerda impediram a realização do evento e ainda nos agrediram. A Polícia Militar precisou me resgatar”, escreveu.

O Diretório Central de Estudantes da Federal (DCE-UFPR) divulgou um vídeo criticando a atuação policial e com uma postagem que reforça o caráter pacífico da manifestação.

Os estudantes da UFPR se mobilizaram e deram o recado: aqui não existe espaço para a extrema-direita! Enquanto Bolsonaro e seus comparsas estão no banco dos réus, prestes a ser presos, tentam utilizar nossa universidade como palco da articulação por anistia para os golpistas! A mobilização barrou a atividade da extrema-direita, que reagiu com violência e acionou a polícia militar que invadiu a universidade para nos agredir. Um estudante foi preso e outros atingidos por bombas de efeito moral, balas de borracha e spray de pimenta. Não recuaremos nem um passo! Seguiremos em luta até Bolsonaro e todos os golpistas estarem atrás das grades. Exigimos a liberdade imediata de nosso companheiro preso e a investigação a respeito da entrada da polícia militar na universidade e abuso de autoridade!”, escreveu o coletivo de estudantes.

Já a direção da Faculdade de Direito e a Reitoria da UFPR divulgaram nota após o incidente ressaltando que a palestra já havia sido cancelada antes mesmo das manifestações. Confira a manifestação na íntegra.

Sobre o evento intitulado “O STF e a Interpretação Constitucional” e os acontecimentos da noite de hoje, 9 de setembro de 2025, na Faculdade de Direito: A Direção da Faculdade de Direito e a Reitoria da Universidade Federal do Paraná informam que o evento previsto para ocorrer no Salão Nobre, nesta data, foi cancelado pela docente organizadora minutos antes de sua realização. Contudo, conforme vídeos, um grupo com os palestrantes forçou a entrada, empurrando o Vice-diretor do Setor de Ciências Jurídicas, o que desencadeou uma série de reações que culminaram em uma resposta desproporcional das forças de segurança pública em relação à comunidade que se manifestava. O evento foi organizado por uma professora do curso de Direito que tem autonomia para a promoção da atividade. Diante da repercussão nas redes sociais semanas antes do evento, a Direção da Faculdade de Direito da UFPR alertou a professora responsável quanto aos riscos à integridade física da comunidade acadêmica e participantes. A autorização para uso dos espaços da universidade, quando atendidos os requisitos formais, é concedida de forma isonômica aos solicitantes. A UFPR, enquanto instituição pública e plural, tem compromisso com a defesa do Estado Democrático de Direito, liberdade de expressão e condena toda forma de violência. Direção da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná Reitoria da Universidade Federal do Paraná.


Sobre

Jornalista, pós-graduado em Mídias Digitais, com passagem por veículos nacionais como CNN Brasil, Jovem Pan News e Record. Atuou em rádio, TV e internet, além de ter sido colunista de política no portal RIC.com.br.

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