Saiba quais as acusações e como estão as ações por compra de votos dos vereadores de Paranaguá
As eleições municipais de 2024 em Paranaguá renderam não apenas novos nomes para a Câmara de Vereadores, mas também abriram uma série de investigações que apontam para práticas graves de corrupção eleitoral. Três dos vereadores eleitos: Fabio dos Santos (PSDB), Renan Britto (Progressistas) e Mari Leite (Agir) são alvos de ações na Justiça Eleitoral por suspeita de compra de votos. Os processos envolvem prisões em flagrante, apreensão de dinheiro e material de campanha, análise de provas digitais e denúncias formais feitas pelo Ministério Público Eleitoral (MPE)

As investigações correm em paralelo, mas revelam uma mesma prática: a suposta distribuição de dinheiro e favores em troca de votos no dia da eleição. Com base em operações da Polícia Federal (PF), diligências do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e material técnico da perícia criminal, os autos desenham um cenário de aliciamento de eleitores às margens da legalidade.
Caso Fabio dos Santos
O vereador Fabio dos Santos (PSDB), eleito em 2024 com 1.340 votos, é investigado em uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE), ajuizada pelo Ministério Público Eleitoral. O caso teve início com uma denúncia recebida por autoridades no dia 6 de outubro de 2024, data do pleito municipal. Segundo os autos, uma equipe da Polícia Civil e o juiz eleitoral da 5ª Zona de Paranaguá, Eduardo Pinheiro Vianna, se dirigiram a uma residência no bairro Serraria do Rocha, onde teria ocorrido a distribuição de dinheiro em troca de votos.

No local, foi presa em flagrante Vera Lucia de Assunção Belém, que confessou estar comprando votos para o então candidato Fabio dos Santos. Com ela, foram apreendidos 160 santinhos de campanha e um caderno com anotações de nomes e números de título de eleitor, o que reforçou os indícios de prática ilícita. As anotações estavam organizadas junto a valores supostamente pagos por cada voto.
A defesa de Fabio dos Santos contestou a validade da busca e apreensão, alegando que ela teria sido realizada de forma irregular. Argumentou ainda que a ação do Ministério Público era genérica e não indicava provas concretas contra o candidato. Com base nessa análise, o corpo jurídico de defesa do parlamentar pediu a nulidade das provas e a rejeição da denúncia.
Em decisão de 3 de abril de 2025, o juiz Leonardo Marcelo Mounic Lago negou os pedidos da defesa e manteve o prosseguimento do processo. A decisão afirma que havia “fundadas razões” para a atuação das autoridades, que a entrada no imóvel foi autorizada pela moradora, e que o material apreendido — especialmente a lista com dados dos eleitores — é suficientemente robusto para fundamentar a ação.
Além disso, o juiz indeferiu o pedido da defesa para requisitar judicialmente dados financeiros do Hospital Angelina Caron, onde, segundo a argumentação da defesa, um irmão do investigado teria pago por um procedimento médico supostamente vinculado ao caso.
Caso Renan Britto
Outro vereador investigado por suposta compra de votos é Renan de Andrade Britto Barboza (Progressistas), que saiu vitorioso das urnas ao fazer 1.487 votos. Ele é citado em um processo que teve início com uma abordagem policial na Vila Guarani, também no dia 6 de outubro. Agentes da Polícia Federal receberam uma denúncia de que estaria ocorrendo compra de votos na distribuidora de bebidas “Pica-Pau”, e passaram a monitorar o local.

Durante a abordagem, um cidadão foi parado com um panfleto de campanha com o número de Renan Britto e afirmou ter recebido R$ 50 para votar no candidato, apesar de não saber seu nome. O local foi então vistoriado, e outros três indivíduos foram detidos.
Um dos presos, Lucas Mendes Belo, foi encontrado com mais de R$ 4 mil em espécie, todos em notas de R$ 50, além de diversos santinhos de campanha de Renan Britto. Outro preso, Edivaldo da Silva Belo, estava com R$ 200 e material de campanha do candidato Rafael Guttirres Junior (União Brasil), o Rafinha, que não foi eleito. Um terceiro abordado, Flávio Cardoso do Rosário, também confirmou que recebeu R$ 50 para votar em Renan Britto. Todos estavam com títulos de eleitor em mãos.
A Polícia Federal elaborou um Termo de Apreensão, registrando o dinheiro e o material apreendido, e o caso foi formalizado em inquérito. A Justiça Eleitoral acolheu a petição inicial da AIJE e determinou a citação dos investigados — Renan Britto e Rafael Guttierres Junior — para que apresentem defesa no prazo legal de cinco dias. O Ministério Público segue analisando o conjunto probatório e poderá pedir novas diligências.
Caso Mari Leite
Um dos casos mais detalhados nas investigações é o da vereadora Marilis Rocha da Silva (Agir), eleita com 1.502 votos. Ela é uma das principais figuras investigadas na Operação Demokratia, deflagrada pelo Gaeco e pela Polícia Federal, que revelou um possível esquema estruturado de compra de votos na cidade.

O ponto de partida foi a prisão em flagrante de Douglas da Costa dos Santos, no bairro Serraria do Rocha, também no dia da eleição. Segundo depoimento apurado pela PF, Douglas confessou estar pagando eleitores para votar em “Mari Leite”, nome de urna de Marilis. Ele portava uma lista com nomes e títulos de eleitores, o que levou à apreensão de celulares e documentos.
A análise dos aparelhos celulares revelou mensagens e áudios trocados entre Marilis e seu marido, Waldir Turchetti da Costa Leite, ex-vereador condenado por improbidade administrativa. Em uma das gravações, Marilis afirma à irmã: “…o Waldir vai gastar uma grana, vai comprar uns 800 votos”.
Outras mensagens detalham pagamentos, fornecimento de gasolina e estratégia de campanha com distribuição de recursos a eleitores. Um dos nomes citados nas mensagens é Marcos Ribeiro dos Santos, outro investigado no processo, que teria atuado como elo entre Waldir e a base de apoio da candidata.
O caso gerou um processo que tramita na Justiça Eleitoral. A petição inicial foi acolhida, e os envolvidos já foram citados para apresentar defesa. O processo está em fase de manifestação do Ministério Público, que poderá oferecer denúncia formal ou pedir novas diligências.
Próximas etapas
Se condenados, os vereadores podem perder seus mandatos, sofrer multa, ter os direitos políticos suspensos e ficar inelegíveis por até oito anos, de acordo com a Lei da Ficha Limpa e a Lei das Eleições.
Mas, como os processos estão em etapa de juizado de primeira grau, qualquer eventual sentença pode ser recorrida ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e, na sequência, às instâncias superiores.
O JB Litoral procurou os três vereadores citados na reportagem. Mari Leite afirmou que é inocente, que acredita na Justiça e que prefere se pronunciar publicamente sobre a ação quando o processo chegar ao fim. Fabio dos Santos informou que entraria em contato com seu advogado antes de responder os questionamentos. Já Renan Britto não retornou nosso contato.
