Críticas da FIEP movimentam setores ligados ao Porto de Paranaguá; entenda a polêmica
A relação entre a Federação das Indústrias do Estado do Paraná (FIEP) e a administração da Portos do Paraná vive um momento de forte tensão. Após críticas feitas pela federação sobre à estrutura logística e à gestão dos portos paranaenses — especialmente do Porto de Paranaguá —, autoridades do legislativo local reagiram de forma dura, declarando o presidente da FIEP, Edson Vasconcelos, como persona non grata no município.
As divergências vieram à tona após a divulgação de um estudo encomendado pela entidade e conduzido por Luiz Henrique Dividino, ex-superintendente da Portos do Paraná, que hoje atua como consultor técnico do projeto do Porto Guará, empreendimento portuário privado previsto para ser instalado em Paranaguá.

Material aponta deficiências logísticas
O estudo técnico coordenado por Dividino analisou os gargalos logísticos enfrentados pelo Estado e levantou preocupações sobre a infraestrutura rodoviária, ferroviária e portuária do Paraná. Segundo o documento, o atual modelo de gestão portuária compromete a eficiência do escoamento da produção industrial e agrícola, o que pode afetar a competitividade paranaense no cenário nacional e internacional.
Entre os principais pontos destacados pela FIEP estão:
- Dificuldades de acesso ao Porto de Paranaguá por via rodoviária, especialmente para veículos pesados;
- Baixa capacidade de integração ferroviária com outras regiões do Estado;
- Necessidade de modernização dos processos logísticos e operacionais do porto.
O relatório defende que a atual estrutura não é suficiente para absorver o crescimento da produção agrícola, principalmente de grãos, e das exportações industriais nos próximos anos.
Portos do Paraná reage: “crescimento e modernização em curso”
Em resposta às críticas, a empresa pública Portos do Paraná divulgou notas oficiais reafirmando os avanços alcançados pela atual gestão. A companhia destacou que o Complexo Portuário de Paranaguá e Antonina têm registrado crescimento expressivo nos últimos anos. Em 2024, por exemplo, foram movimentadas cerca de 66,7 milhões de toneladas de cargas, com projeção de alcançar 70 milhões em 2025.
A administração também lembrou que, em 2015, esse número era de pouco mais de 30 milhões de toneladas — praticamente metade do volume atual. Os investimentos em obras de dragagem, modernização de berços de atracação, digitalização de processos e expansão da retroárea também foram apontados como pilares do crescimento contínuo do porto.
“O Porto e todo o sistema que ele alimenta são uma gigantesca fonte de renda para a cidade e seus moradores. Se ampliarmos ainda mais nossa capacidade de operação — e estamos trabalhando para isso —, as empresas já instaladas terão oportunidades de expansão, e novas empresas poderão se estabelecer na região”, afirmou o diretor-presidente da Portos do Paraná, Luiz Fernando Garcia, em entrevista recente ao JB Litoral.

Clima político esquenta em Paranaguá
A repercussão das críticas da FIEP foi imediata entre lideranças políticas e empresariais de Paranaguá. Vereadores da cidade aprovaram uma moção declarando Edson Vasconcelos, presidente da FIEP, como persona non grata, sob o argumento de que as críticas seriam injustas, desrespeitosas com os trabalhadores do porto e prejudiciais à imagem da cidade como polo logístico.
A medida tem caráter simbólico, mas reflete o desgaste na relação entre a federação industrial e autoridades locais. Setores ligados ao comércio e ao transporte marítimo também se posicionaram contrários ao teor do estudo.
A trajetória de Luiz Henrique Dividino
Luiz Henrique Tessuti Dividino é uma figura central nesse embate. Ele tem mais de 30 anos de experiência no setor logístico e portuário. Foi superintendente da Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (APPA) entre 2012 e 2018, período no qual comandou diversas obras de modernização, mas tem seu nome mais lembrado devido às polêmicas e entraves legais.

Durante sua gestão na APPA, Dividino enfrentou desafios operacionais, como a desistência de navios que aguardavam para atracar no corredor de exportação do Porto de Paranaguá por falta de carga disponível. Esse problema evidenciou questões relacionadas à logística e ao planejamento de cargas no porto em um período que se esperava crescimentos promissores.
Além disso, no seu segundo ano de administração, foi descoberto que alguns funcionários utilizavam “dedos de silicone” para fraudar o sistema de ponto eletrônico, registrando presenças fictícias. À época, o então superintendente classificou a prática como “bastante grave” e afirmou que a administração adotou medidas imediatas ao tomar conhecimento da fraude.
Outra polêmica começou também em 2014, quando a APPA apresentou detalhes sobre o Plano de Desligamento Incentivado (PDI) ao Sindicato dos Trabalhadores Portuários (Sintraport), como parte das mudanças decorrentes da transformação da autarquia em empresa pública, o que gerou críticas de diversas lideranças dos trabalhadores portuários, principalmente pela forma com que foi conduzido esse processo.
Em 2015, o Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) recebeu um relatório da Comissão de Averiguação designada pela APPA, abordando questões relacionadas ao Terminal Público de Fertilizantes. O relatório indicava que o tema havia sido amplamente discutido em 2012, resultando na conversão de permissões em contratos de passagem.
Em 2017, a Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (ALEP) instaurou a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Tarifas Portuárias para investigar questões relacionadas às cobranças nos portos paranaenses. Durante essa CPI, Dividino foi ouvido para prestar esclarecimentos sobre as operações portuárias e as políticas tarifárias adotadas e reafirmou que apesar de problemas do passado, as contas estavam em dia e que as tarifas cobradas eram 35% mais baratas se comparadas ao Porto de Santos (SP).
Em abril de 2018, após seis anos à frente da APPA, Luiz Henrique pediu demissão do cargo de diretor-presidente.
Após sua saída, passou a atuar como consultor técnico e, recentemente, foi anunciado como nome-chave do Porto Guará, um novo projeto portuário privado, previsto para ser instalado também em Paranaguá. O Porto Guará deve receber investimentos de R$ 5,6 bilhões e tem como objetivo movimentar até 26,5 milhões de toneladas por ano, focando em cargas de exportação do agronegócio, sobretudo com destino ao mercado asiático.
Paralelamente, Dividino tem colaborado com a FIEP na formulação de diagnósticos e propostas para a logística estadual, trazendo sua visão sobre os gargalos atuais e, automaticamente, beneficiando o empreendimento que ele agora está ajudando a tirar do papel.

FIEP defende debate técnico
Em nota, a FIEP lamentou a reação de autoridades de Paranaguá e afirmou que o estudo não teve como objetivo atacar instituições ou pessoas, mas sim fomentar o debate público sobre infraestrutura. “As críticas são baseadas em dados técnicos e visam contribuir com soluções. A competitividade do Paraná depende de uma logística integrada, moderna e eficiente”, afirma o texto divulgado pela entidade.
A federação também reiterou que continuará atuando em defesa dos interesses da indústria paranaense e buscando o diálogo com todas as esferas de governo e setores produtivos.
