Com mais de 200 páginas, relatório da CPI que investigou irregularidades em PSS é apresentado na Câmara de Guaraqueçaba


Por Brayan Valêncio Publicado 21/08/2025 às 11h02 Atualizado 15/09/2025 às 01h47

Após dois meses de investigações, foi apresentado na última terça-feira (12), durante sessão ordinária na Câmara de Guaraqueçaba, o relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que apurou suspeitas de irregularidades no Processo Seletivo Simplificado (PSS) promovido pela Secretaria Municipal de Educação, no primeiro semestre deste ano.

O relatório final da CPI foi lido pelo relator, vereador Thuca da Saúde, no último dia 12
O relatório final da CPI foi lido pelo relator, vereador Thuca da Saúde, no último dia 12. Foto: JB Litoral

O processo, que abriu 168 vagas para contratação imediata e formação de cadastro de reserva na pasta, cujos salários variavam de R$ 1.509,00 a R$ 2.560,16, foi anulado após a aprovação da CPI, na Casa de Leis. Mas, o cancelamento do certame por parte da Prefeitura de Guaraqueçaba não inviabilizou a continuidade dos trabalhos da Comissão, que apontou 80 “pontos críticos que justificaram a apuração legislativa”.

De acordo com o relatório apresentado durante a sessão de terça-feira e ao qual o JB Litoral teve acesso, entre os motivos apontados pela CPI para a investigação estão:

– Uso de decretos revogados: atos administrativos (como a nomeação da comissão) basearam-se em normativas já sem validade jurídica.

– Motivação genérica nos editais: falta de justificativas claras e coerentes para decisões relevantes do certame.

– Plágio de edital de outro município: indício de cópia não autorizada de edital, sem adequação à realidade local.

– Parecer jurídico inconsistente: inicialmente validando o processo, mas posteriormente reconhecendo vícios que recomendariam sua anulação.

– Nomeações irregulares: inclusão de membros sem formalização via decreto ou portaria.

– Exoneração informal: retirada de servidoras da comissão antes da publicação do decreto de nomeação.

– Nepotismo e falta de afastamento: participação de membros com parentesco direto com candidatos, sem qualquer mecanismo de impedimento.

– Reuniões e assinaturas irregulares: assinaturas ausentes ou realizadas por pessoas não integrantes da comissão em documentos oficiais.

– Inserção/exclusão de nomes entre classificações: sem justificativa pública ou formal.

– Mudança de vagas/localidades: alterações após o encerramento das inscrições, sem ampla divulgação ou reabertura do prazo.

O vereador Thuca da Saúde fez a leitura do relatório final da CPI que investigou o PSS da Educação, durante sessão na Câmara de Guaraqueçaba
O vereador Thuca da Saúde fez a leitura do relatório final da CPI que investigou o PSS da Educação, durante sessão na Câmara de Guaraqueçaba

Conclusões da CPI

As investigações foram conduzidas pelo presidente da CPI, o vereador Joceni Roecker (Republicanos); Alcendino Ferreira Barbosa (PSDB), o Thuca da Saúde, como relator; e os vereadores Edvaldo Narciso Izabel (União – membro), Jefferson Luiz Barbosa (União) e Edgard Mandira de Morais (MDB), na figura de suplentes.

Baseados em análises de documentos, oitivas e confrontos técnicos, os parlamentares concluíram que o PSS foi conduzido de maneira ilegal, desorganizada e desrespeitosa aos princípios constitucionais que regem a Administração Pública.

As investigações revelaram a existência de um conjunto robusto de vícios formais e materiais que comprometem, de forma insanável, a lisura, a legitimidade e a eficácia jurídica de todas as fases do processo seletivo. Tais irregularidades não se restringem a falhas pontuais, mas indicam um padrão de gestão negligente, omissa e, por vezes, deliberadamente irregular, com prejuízos evidentes à transparência, à impessoalidade e ao interesse público”, diz trecho do relatório.

Também segundo o relatório apresentado, foi identificada em etapas do PSS a participação de pessoas que não integravam legalmente a comissão organizadora do Processo Seletivo, inclusive com assinatura de atas, elaboração de documentos estruturantes e acesso a informações sensíveis dos candidatos. Também foi identificada a realização de reuniões deliberativas sem quórum mínimo legal, com decisões tomadas por apenas uma pessoa (o presidente da comissão, que redigiu o documento em sua residência) e o desconhecimento por parte de diversos depoentes, que afirmaram desconhecer quem foi o real autor do edital.

Edital “clonado”

De acordo com os vereadores, o edital, que deveria ter sido produto de deliberação coletiva, registrado em ata e submetido à análise jurídica, “foi baseado em cópias de modelos de outros municípios — como Sobral/CE –, entregues em pen drive por servidores, e adaptado sem controle técnico ou validação oficial. Essa situação fere diretamente o princípio da legalidade e torna o edital um documento de origem contaminada por vícios insanáveis”, afirma o relatório.

Ainda sobre o edital, a CPI apurou que nele constam inconsistências e contradições, especialmente quanto aos critérios de pontuação. Em vários cargos, os mesmos fatores foram utilizados de forma duplicada — tanto na pontuação de títulos quanto como critérios de desempate —, como é o caso da experiência profissional e da escolaridade, “em total afronta à jurisprudência do STF e do STJ, que veda a duplicidade de critérios. Além disso, foram encontradas situações em que acadêmicos em formação receberam a mesma pontuação que profissionais pós-graduados, evidenciando uma inversão dos valores meritocráticos e uma afronta ao princípio da razoabilidade”, diz o documento.

Vaga “extra” e bilhetes anexados às inscrições

Outro aspecto considerado grave foi a inclusão, na classificação final, de uma vaga que sequer constava no edital original, como no caso do cargo de Auxiliar de Serviços Gerais da Escola Rural Municipal de Bertioga.

A criação extemporânea dessa vaga, sem oferta pública e sem previsão no Quadro VIII do edital, constitui violação direta ao princípio da vinculação ao edital e pode configurar, inclusive, favorecimento indevido”.

A CPI também identificou bilhetes manuais deixados nas inscrições físicas dos candidatos que indicariam possíveis tratamentos diferenciados a candidatos: “…membros da comissão apontaram, de forma arbitrária e subjetiva, aumentos ou diminuições de notas sem qualquer respaldo documental, sem abertura de recurso e sem justificativa formal. Esses registros revelam o tratamento desigual conferido aos candidatos e a ausência completa de critérios padronizados na aplicação das regras editalícias”, aponta o relatório final.

Envolvimento do Poder Executivo e pedido de providências

A investigação da CPI ainda confirmou o envolvimento direto do Poder Executivo Municipal na organização do certame. A informação foi formalizada por meio de ofício assinado pelo, então, secretário municipal de Educação, Luciano Vidal Barbosa, que identificou como participantes da condução do processo seletivo: Alessandro Carneiro Soares Truchinski (Sandro da Saúde) – Prefeito, Victor Vitelci de Souza Alves – Procurador Geral do Município, Dalton Junior de Miranda Mendes – secretário municipal de Finanças, Arivaldo Carneiro Soares – secretário municipal de Administração e Fernanda Kelly Araújo Rego Pereira – Contadora do Município.

Diante das irregularidades apontadas ao longo das apurações, a CPI recomendou a responsabilização administrativa, civil e eventualmente penal dos agentes públicos envolvidos, “além da reparação dos danos causados ao erário e aos candidatos prejudicados”.

Os parlamentares também pedem a retratação pública, com emissão de nota oficial de retratação pública, por parte da Prefeitura de Guaraqueçaba, “com ampla divulgação, reconhecendo as falhas administrativas e prestando esclarecimentos à população e aos participantes prejudicados”. Também considera essencial que a Administração Municipal “estabeleça, com urgência, protocolos de controle, assessoramento jurídico e integridade institucional para evitar a repetição de fatos semelhantes”, conclui o relatório, que também foi enviado ao Ministério Público do Paraná, Tribunal de Contas do Estado e para a Controladoria Geral do Município de Guaraqueçaba.

Próximos passos

Ainda não há data definida para a votação do relatório. Quando for apreciado em plenário, os vereadores deverão decidir se o caso será arquivado ou se a Prefeitura será notificada.

O JB Litoral procurou o prefeito de Guaraqueçaba, mas Sandro da Saúde afirmou que só irá se manifestar após votação do relatório na Câmara Municipal.


Sobre

Jornalista, pós-graduado em Mídias Digitais, com passagem por veículos nacionais como CNN Brasil, Jovem Pan News e Record. Atuou em rádio, TV e internet, além de ter sido colunista de política no portal RIC.com.br.

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