Moradores da Colônia Potreiro, em Guaratuba, sofrem com más condições de estradas e falta de infraestrutura básica


Por Luiza Rampelotti Publicado 14/07/2023 às 12h12 Atualizado 18/02/2024 às 17h02

Uma comunidade rural localizada dentro de uma Área de Proteção Ambiental (APA) de Guaratuba, que tem divisa com os municípios de São José dos Pinhais (PR), Tijucas do Sul (PR) e Garuva (SC). Moradores que utilizam serviços públicos das quatro cidades citadas, porque o oferecido pelo município de origem não é o suficiente para atender satisfatoriamente as demandas da população. Alunos que não conseguem ir à escola devido às péssimas condições das estradas; produtores de banana que não conseguem escoar suas produções pelo mesmo motivo; pessoas que chegam a ficar semanas isoladas; dificuldade de acesso aos serviços de saúde; desespero em casos de emergência. Esse é o relato dos moradores da Colônia Potreiro, em Guaratuba.

O JB Litoral esteve presente na comunidade para conhecer a realidade local. Uma viagem de quase duas horas de Paranaguá à Colônia, via BR-376. Depois, outra dificuldade para chegar, efetivamente, onde as pessoas vivem: estradas esburacadas, lameadas e barreiras caídas.

Da vivência in loco surge esta reportagem especial, que será dividida em duas partes, com a próxima a ser lançada na edição impressa de segunda-feira (10) que vem.  

Problema de anos


Ao chegar no ponto de encontro, a Associação de Produtores Rurais Nova Comunidade, cerca de 15 pessoas aguardavam à equipe de reportagem, ansiosas para contarem sua história e esperançosas de que algo pudesse mudar.

Carla do Rocio Semes é a porta-voz dos moradores. Ela conta que a falta de manutenção das estradas é um problema antigo, e que outra situação preocupante é a falta de transporte escolar para alunos da rede estadual, que estudam em São José dos Pinhais por ser mais perto – cerca de 55 km de distância.

O problema é de anos, mas protocolamos a primeira reivindicação por melhorias nas estradas e por transporte escolar para as crianças em 2017. Desde então, não tivemos nenhuma resposta”, conta. 

Carla do Rocio Semes é moradora da região. Ela conta sobre os problemas do local e destaca que as reivindicações ao Poder Municipal são antigas. Foto: Rafael Pinheiro/JB Litoral


Falta de transporte escolar


Ela destaca, ainda, o impacto da falta de manutenção das estradas na vida dos moradores. “Os produtores já perderam muita banana por não conseguir escoar; além disso, temos adolescentes que deixaram de ir para a escola por conta da dificuldade do transporte. Já ficamos 10 dias completamente isolados, sem luz e sem transporte, no final do ano passado, quando caíram as barreiras por conta da chuva”, diz.

Sobre as quedas de barreiras nas estradas, Carla afirma que os próprios moradores tiveram que pagar um terceiro para realizar a desobstrução, porque a Prefeitura não fez a liberação dos pontos bloqueados. Já sobre o transporte escolar, ela fala que a situação foi “meio” resolvida.

É que antes de 2017, nem os alunos da rede municipal de ensino tinham transporte escolar. Com a solicitação dos moradores, via protocolo, um carro com motorista foi disponibilizado. O motorista pega as crianças em casa e leva até a Escola Municipal Alto da Serra, que atende do 1º ao 5º ano, e fica no outro lado da BR-376.

No entanto, as crianças maiores e adolescentes, que estudam do 6º ano ao Ensino Médio, em escola da rede estadual de educação, não dispõem de veículo. Então, eles precisam caminhar a pé, cerca de 4 km, até o ponto de ônibus que fica na BR, e aguardar o ônibus de linha de São José dos Pinhais, que os leva até a Escola Estadual Eunice Borges. Só que em dias chuvosos, a caminhada fica impossível.

Nossa reivindicação também é para um transporte que leve os estudantes para a Escola Eunice Borges, porque a luta deles é muito grande”, diz Carla.

O adolescente Kaique Semes está no 1º ano do Ensino Médio na Escola Eunice Borges, em São José dos Pinhais. Ele precisa caminhar, diariamente, cerca de 3 km até o ponto de ônibus para pegar o transporte até a escola, que fica a 55 km. Foto: Rafael Pinheiro/JB Litoral


Educação precária


Simone Guarnieri é uma das mães que têm criança matriculada na Escola Municipal Alto da Serra. Ela conta que a comunidade do Potreiro possui, aproximadamente, cinco crianças matriculadas na instituição de ensino. Contudo, ela reclama da didática pedagógica da unidade.

Além dos transtornos ocasionados pela péssima condição das estradas, as crianças também têm um ensino péssimo na escola. Um dos professores da unidade já deveria ter sido aposentado, pois não tem mais condições de dar aula. As únicas atividades que as crianças do 5º ano recebem são aquelas de 2º ano, e isso prejudica muito a aprendizagem delas, que estão atrasadas no conteúdo”, conta.

A moradora Simone Guarnieri relata sobre as dificuldades de deslocamento na região. Foto: Rafael Pinheiro/JB Litoral


Além disso, Simone também fala sobre as condições estruturais da escola municipal. “A escola não tem parque, o refeitório é fora da estrutura edificada, por isso, em tempo frio e de chuva, as crianças têm que lanchar dentro da sala de aula”, diz.

Ela relembra que, no ano passado, a filha ficou 15 dias sem ir para a escola porque o carro disponibilizado pela Prefeitura não conseguia transitar na estrada devido aos estragos causados pela chuva.

Outra mãe é Jéssica Estevam, que tem um filho de quatro anos que não vai para a escola devido à falta de um Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) próximo. A unidade que oferece Educação Infantil mais próxima fica na comunidade Rio Bonito, mas Jéssica não se sente segura em deixar o menino fazer a viagem de 40 km diariamente.

Meu filho não vai à escola porque não tem Educação Infantil para nós. A escola mais próxima fica no Rio Bonito, mas não vou mandá-lo nessa serra que é muito perigosa. Como recebo Bolsa Família, volta e meia o Governo Federal corta porque ele não vai para a escola, e é obrigatório a partir dos quatro anos”, lamenta.

Estradas da Colônia Potreiro estão em péssimas condições. Carros normais não passam na via, impactando diretamente na qualidade de vida dos moradores. Foto: Rafael Pinheiro/JB Litoral

Saúde é ponto crítico


Outro ponto crítico é a falta de serviços de saúde na região. Com apenas a Unidade Básica de Saúde (UBS) da Pedra Branca do Araraquara, a cerca de 50 km de distância, como referência, a comunidade enfrenta dificuldades para ter acesso a atendimento médico adequado.

Segundo Carla, em casos de emergência, os moradores se deslocam para cidades vizinhas, como Garuva e Tijucas do Sul. No entanto, em dias de chuva, o perigo é ainda maior devido à ameaça de isolamento.

Vergelina de Fátima Moreira mora com a mãe idosa, de 83 anos, no Potreiro. Ela conta que, frequentemente, a mãe precisa ser levada ao médico devido a problemas de saúde. Além disso, relembra os dias de isolamento no ano passado.

Quando caíram as barreiras, ficamos 10 dias completamente isolados, sem luz, sem estradas, sem nada. Dependo dos vizinhos para levá-la ao médico e para todo o resto, como comprar algo para casa ou para os bichos”, conta.

Dona Mari Carvalho também ressalta o impacto das condições da estrada para os moradores. Ela comenta que tem chácara na região desde 2004 e, em todos esses anos, o problema nunca foi resolvido.

Tem lugares que a barreira caiu em novembro e não foi tirada até hoje. Em dias de chuva não tem como sair de casa e, quando há um período muito longo de chuvas, ficamos isolados. Nesses casos, se acontecer algo grave, morremos ali mesmo, porque não tem como sair, ambulância não entra aqui”, revela.

Com toda dificuldade de deslocamento e a distância geográfica de grandes centros urbanos, os moradores contam com a solidariedade uns dos outros até para manterem as despensas cheias. “A gente vai no mercado uma vez por mês, porque não existe nada aqui perto. Padaria, mercearia, aqui não tem. Então, se a vizinha sai, pedimos para ela trazer algo para nós. Um vizinho avisa o outro e assim vamos comprando o que precisamos; como ração para as galinhas, milho, pão e essas coisas. Um ajuda o outro”, conta Simone.

A Associação Nova Comunidade possui salas, que necessitam de reforma, e que, segundo os moradores, poderiam ser utilizadas pelo Poder Municipal para oferecer serviços públicos. Foto: Rafael Pinheiro/JB Litoral


Prefeitura justifica, mas moradores rebatem


O JB Litoral questionou a Prefeitura de Guaratuba sobre a situação da Colônia Potreiro. À reportagem, a assessoria de imprensa do Poder Municipal afirmou que, além da UBS, a Escola Municipal Rural Alto da Serra recebe a Equipe Móvel Rural a cada 15 dias, realizando consultas médicas, aplicação de vacinas, exames preventivos, testes rápidos de gravidez, HIV, Hepatite B e C e Sífilis. 

Sobre a falta de Educação Infantil na região, a Prefeitura afirmou que oferece a Educação Infantil 4 e 5 na Escola Alto da Serra, contudo, não há alunos matriculados. A informação foi desmentida pelos moradores, que reafirmaram que não têm conhecimento de que a modalidade de ensino seja oferecida na escola.

Além disso, sobre o transporte escolar para a rede estadual de ensino, a Prefeitura afirmou que é de responsabilidade do Governo do Estado. “Ano passado foi realizada uma parceria para levar estudantes matriculados em um colégio próximo, em Garuva, mas este ano não há solicitação de transporte de estudante local para colégio estadual”, declarou.

Mais uma vez, a afirmação do Poder Municipal foi rebatida pelos moradores locais. Carla, que é mãe de Kaique Semes dos Santos, de 15 anos, que estuda no 1º ano do Ensino Médio na Escola Eunice Borges, em São José dos Pinhais, conta que já pediu inúmeras vezes o transporte escolar para o colégio estadual.

Kaique é apenas um dos adolescentes que moram na Colônia Potreiro e se desloca, diariamente, 110 km no total para estudar. “Moro a cerca de 3 km de casa até o ponto de ônibus, que fica na BR, onde pego o ônibus de linha, de São José dos Pinhais, para ir ao colégio. Dá uns 30 minutos de caminhada todos os dias. Em dias de chuva não tenho como ir. Já até pensei em parar de estudar por causa dessa situação, mas não dá, preciso pensar no futuro. Só que nós precisamos de transporte e de uma estrada boa, porque se não, não tem como”, conta.


Demanda suprida, avalia Prefeitura


Dona Terezinha Anália da Silva, que também mora na Colônia Potreiro, vislumbra uma “solução” para a situação. Ela sugere que a sede da Associação dos Produtores Rurais Nova Comunidade poderia ser utilizada para oferecimento dos serviços públicos aos moradores da região.

O local possui duas construções edificadas, com várias salas e banheiros, mas em situação precária, necessitando de uma reforma. “Se a Prefeitura nos ajudasse a reformar esse local, aqui poderíamos ter atendimento de saúde, pelo menos uma vez por mês, uma escolinha de Educação Infantil, e outros serviços necessários”, conclui.

No entanto, no ponto de vista da Prefeitura de Guaratuba, a comunidade que vive na Colônia Potreiro não está precisando de nada. “Foi verificado que as unidades e serviços próximos absorvem a demanda baixa da comunidade, não necessitando de novos espaços”, afirmou ao JB Litoral.

As dificuldades dos produtores de banana


A próxima edição impressa do JB Litoral, que será lançada em 10 de julho, trará a conclusão desta reportagem especial sobre a Colônia Potreiro, abordando as adversidades enfrentadas pelos produtores de banana da região. Um dos principais desafios enfrentados por esses agricultores é o escoamento da produção, que é severamente prejudicado pelas condições precárias das estradas locais.