Raio-X com defeito vira tema de declarações públicas e provoca polêmica, em Paranaguá


Por Redação Publicado 02/12/2024 às 11h05
UPA ficou sem Raio-X por semanas, entre outubro e novembro; atendimento para o exame ficou a cargo do João Paulo II, durante o período. Foto: Rafael Pinheiro/JB Litoral
UPA ficou sem Raio-X por semanas, entre outubro e novembro; atendimento para o exame ficou a cargo do João Paulo II, durante o período. Foto: Rafael Pinheiro/JB Litoral

Moradores de Paranaguá que precisaram de exames de Raio-X na Unidade de Pronto Atendimento (UPA), durante o mês de outubro até meados de novembro, perceberam que o equipamento estava indisponível e os atendimentos com essa finalidade estavam sendo prestados no Centro Municipal de Diagnóstico João Paulo II. O motivo foi um defeito apresentado na máquina de Raio-X digital que fica na UPA.

Mas o fato extrapolou a esfera da Saúde e virou assunto político. No último dia 22, o prefeito Marcelo Roque (PSD) postou um vídeo em suas redes sociais em que afirmou que haviam feito um boicote à saúde pública.

Pasmem, já trocaram o Raio-X, mas veio o laudo indicando a causa do porquê estragou. A causa foi melado, jogaram açúcar na placa mãe, que tem a função total do aparelho digital. Então, a gente fica preocupado que no final de gestão tem pessoas querendo fazer boicote, não para mim, mas para saúde pública de Paranaguá”, disse Roque em vídeo gravado na UPA.

Esses dias em que ficou paralisado o Raio-X digital, as pessoas tiveram que ir até o João Paulo, o serviço não parou. Mas a gente faz essa pergunta: será que são pessoas que querem o mal ou pessoas que fazem parte de grupo político, que fizeram essa situação e logo em seguida vieram aqui fazer filmagem?”, completou o prefeito.

LEGISLATIVO ENTROU NA POLÊMICA

A declaração do chefe do Executivo Municipal refletiu no expediente da Câmara de Vereadores, na semana passada. Na sessão plenária da segunda-feira (25/11), o vereador da bancada de oposição, Edilson Caetano (Republicanos), contestou as informações do prefeito e mostrou laudos que comprovariam a sua versão de que as causas da pane no equipamento não estão relacionadas ao derramamento de qualquer substância.

Nós estivemos lá na UPA [em 8 de novembro] mostrando a vergonha que estava, até aquele momento, o atendimento em relação ao Raio-X. E o prefeito insinua em seu vídeo que houve um boicote. Mas recebi, de pessoas diretamente ligadas aos profissionais da área do Raio-X, um laudo que desmente completamente [a versão de Marcelo Roque]. Lá consta o erro 113, que significa que o aparelho está apresentando falhas de disparo de Raio-X e falha de potência elétrica“, afirmou Caetano.

Na sessão seguinte (26/11), o líder da Prefeitura no Palácio Carijó, Junior Leite (PSD), contestou a versão de Edilson Caetano e criticou a atitude do parlamentar de entrar na UPA e gravar imagens em área de acesso restrito.

Esse tipo de espaço exige o cumprimento rigoroso de protocolos sanitários e controle de infecções, com vistas a preservar a saúde dos pacientes e trabalhadores que atuam no local”, disse Leite, ao trecho de ofício atribuído à diretora-geral da Fasp (Fundação de Assistência à Saúde de Paranaguá).

Equipamento apresenta defeito no seu funcionamento, as imagens estão com riscos como se a placa tivesse com algum detector quebrado. Ao analisarmos junto do time da Drtech Coreia, verificou-se que realmente a placa está danificada internamente, constatou também que tem resíduo (melado) similar a açúcar que foi colocado ou derrubado no equipamento sendo gerado o RMA-231636. Portanto, salta aos olhos que a falha do equipamento foi causada por ações humanas e não meramente eletrônica”, defendeu o vereador, citando trecho do laudo supostamente feito por empresa junto à fabricante do equipamento, citado no ofício.

O equipamento foi utilizado durante cinco meses antes de começar a apresentar falhas.

VERSÕES CONFLITANTES

O JB Litoral teve acesso aos documentos apresentados pelo vereador Edilson Caetano. Eles foram elaborados pela empresa Sigma Médica, assistência autorizada e suporte técnico da fabricante da máquina de Raio-X. Conforme consta nos relatórios, foram retirados para conserto o gerador e o tubo de Raio-X, no dia 28 de outubro de 2024.

O equipamento apresentou o erro 124 durante o uso. Ao chegar, foi constatado o erro, realizada tentativa de calibração, onde o mesmo não prosseguiu devido ao erro 113. Feita a análise do equipamento e o mesmo apresentou fuga de alta tensão, sendo assim necessário a retirada para levar a fábrica e eles realizarem o reparo”, consta no primeiro documento, do dia da retirada.

Após o reparo, o segundo documento relata a devolução da máquina, já com o problema sanado, em 14 de novembro de 2024. Portanto, 16 dias após a retirada dos itens para conserto.

Equipamento apresentou falha no 124, a qual foi efetuado o atendimento e constatado fuga no gerador. Após retorno da fabricante, em testes foi constatado defeito na ampola a qual foi substituída”, detalha.

A Sigma Médica fica em Araucária, município da Região Metropolitana de Curitiba e, diante das versões conflitantes entre a apresentada pelo prefeito e a dos vereadores, o JB Litoral procurou a empresa.

O sócio proprietário da prestadora de serviço, Raphael Margarf Gomes, explicou o que representam os códigos presentes nos documentos.

Os códigos de erros são proteções apresentadas pelo gerador de modo a impedir um dano maior no produto quando uma anomalia acontece. Isso pode ser gerado por fatores externos, como quedas de energia elétrica e aterramento, por exemplo”, disse Gomes.

Questionado sobre a possibilidade de haver “melado” no equipamento, o responsável pela assistência foi categórico.

Isso não aconteceu. Fomos nós quem retiramos o equipamento da unidade e consertamos. Em nenhum momento tinha algum objeto ou qualquer material dentro. Até porque se tivesse um material estranho dentro não teria garantia”, concluiu, em conversa com o JB Litoral.

TRÉPLICA DA PREFEITURA

Na última quarta-feira (27/11), após a queda de braço no Palácio Carijó, a Prefeitura publicou em seu site oficial uma matéria em que traz imagens do laudo citado tanto pelo prefeito Marcelo Roque como pelo vereador Junior Leite.

No texto da Administração Municipal, quem presta esclarecimentos é o supervisor técnico da rede litoral da empresa Maxclinic, Erickson David Coelho, responsável pelos aparelhos e pelo funcionamento da parte diagnóstica do Centro de Diagnóstico João Paulo II e da UPA.

Fomos notificados que ocorreu uma apresentação de problema no equipamento, onde prontamente fomos realizar a correção. O Raio-X é um aparelho complexo e o primeiro laudo não traz a causa do problema e apenas os erros que o equipamento apresentava. O documento final mostra o diagnóstico e o laudo, em que apresenta um melado (açúcar) que foi aplicado na placa a danificando. O açúcar por ser um condutor de energia, pode danificar toda a estrutura da placa. Por ser uma rede de informações que são transmitidas, essa parte de informática, a parte de placas eletrônicos, entre outros, foram danificados por esse processo que foi diagnosticado nesses laudos”, declarou.

EM BUSCA DE ELUCIDAR DÚVIDAS

O JB Litoral também procurou a empresa que aparece nas imagens divulgadas pela Prefeitura como sendo a responsável pelo laudo que teria atestado a presença de melado no equipamento. A Univen Healthcare, tem sede em São José (SC), mas no laudo apresentado pela Administração Municipal, consta o endereço da filial de Palhoça, também em Santa Catarina, com telefone para contato da filial de Curitiba.

Porém, segundo dados públicos da Receita Federal, essa filial de Palhoça (SC) está com o CNPJ inativo, devido à empresa ter sido extinta em 2020.

Até o fechamento desta edição, a Univen Healthcares não respondeu ao e-mail enviado com os pedidos de informação.

Diante das divergências de laudos e empresas citadas, a reportagem também solicitou à Prefeitura de Paranaguá que comentasse essa diferença de informações. O Executivo Municipal se limitou e atribuir a responsabilidade pelas informações às empresas.

Destacamos que a responsabilidade pela manutenção e pela emissão de laudos técnicos do equipamento é de inteira exclusividade da empresa terceirizada contratada para tal fim”, informou, por meio de nota.

A Fasp informa que o equipamento de radiologia da Unidade de Pronto Atendimento (UPA), que havia apresentado uma paralisação temporária, já está em pleno funcionamento”, reforçou a Prefeitura.

O JB Litoral segue com espaço aberto a manifestações de todos os envolvidos.

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