Empresa investigada pela polícia por locar equipamentos públicos de Raio-X é a mesma que alegou haver “melado” em máquina de Paranaguá

A Max Clinic é suspeita de desviar equipamentos de pelo menos três cidades e faturar com a locação deles; caso foi descoberto após denúncia da Prefeitura de Matinhos


Por Flávia Barros Publicado 04/02/2025 às 15h19

Na última quarta-feira (29), a Polícia Civil do Paraná (PCPR) cumpriu mandados de busca e apreensão em Almirante Tamandaré, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), onde localizou e recuperou uma máquina de Raio-X que foi doada pelo Estado, em 2011, ao município de Matinhos, e estaria sendo utilizada irregularmente em uma clínica particular de Almirante Tamandaré. A operação foi deflagrada após uma denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral de Matinhos à PCPR. Segundo a polícia civil, os mandados de busca e apreensão foram cumpridos na residência dos proprietários da Max Clinic e na própria clínica, onde o aparelho foi localizado ligado.

A IDENTIFICAÇÃO E O POSSÍVEL ESQUEMA

A operação foi acompanhada por peritos da Polícia Científica do Paraná (PCP), que identificaram o número de série do equipamento como sendo o mesmo registrado no patrimônio do Município. O Raio-X doado pela Secretaria de Estado da Saúde estava sendo utilizado na Maternidade Nossa Senhora dos Navegantes.

De acordo com o delegado Rodrigo Brown, as investigações devem continuar para confirmar se houve a participação de funcionários públicos municipais na retirada do aparelho da maternidade.

Tudo indica se tratar de um caso mais complexo, que pode envolver outras pessoas, funcionários do município e empresas. É uma situação que vai ter muitos desdobramentos daqui para frente, mas que não podem ser divulgados neste momento para não atrapalhar as investigações”, explicou Brown.

A Prefeitura de Matinhos afirmou que vai apurar se houve participação de servidores no caso.

Diante da gravidade do ocorrido, a Prefeitura acompanhará de perto os desdobramentos da investigação e tomará todas as medidas cabíveis para que os responsáveis sejam punidos na forma da lei. Também será realizada uma auditoria interna para identificar possíveis falhas nos processos de controle patrimonial e reforçar os mecanismos de fiscalização para evitar que situações como essa voltem a acontecer”, disse a Administração Municipal, por meio de nota.

A Max Clinic tem contrato com a Prefeitura de Matinhos para o fornecimento e manutenção de uma máquina de Raio-X utilizada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade, mas não prestava serviços na maternidade.

A Divisão Estadual de Combate à Corrupção (Deccor), da PCPR, também está acompanhando o caso.

MAIS DESCOBERTAS

Mas as novidades sobre o suposto esquema não demoraram a aparecer. Horas após a operação policial recuperar o aparelho da maternidade de Matinhos, a prefeita de Rio Branco do Sul, outra cidade da RMC, Karime Fayad (PSB), postou um vídeo em que denunciou que o Raio-X que estava sendo utilizado na UPA de Matinhos foi retirado irregularmente de um depósito de Rio Branco do Sul e pertence ao Município.

Ainda segundo a prefeita, o equipamento foi para esse depósito há cerca de dois anos, quando começaram as reformas no hospital municipal. Porém, a Prefeitura descobriu que ele foi retirado do local há mais de um ano pela mesma empresa Maxi Clinic, que foi contratada para fornecer a locação de um Raio-X portátil, que cabe nas instalações do Hospital Provisório de Rio Branco do Sul.

A promessa da empresa na época foi tirar uma peça do equipamento para a manutenção, mas o servidor responsável acabou fazendo a retirada total do equipamento“, detalhou Karime.

E não para por aí. Ao verificar o equipamento de radiografia portátil que está no hospital provisório, a Prefeitura de Rio Branco do Sul encontrou uma placa que indica que a máquina pertence à Prefeitura de Doutor Ulysses. A prefeita Karime, que também é presidente do Consórcio Metropolitano de Serviços do Paraná (COMESP), afirmou que o aparelho será devolvido àquele município.

O COMESP levantou que pelo menos 15 cidades da região têm contrato com a Maxi Clinic para encaminhar pacientes que precisam de exame de imagem. No Litoral, Paranaguá também tem contrato com a empresa, que é a mesma que afirmou que o aparelho de Raio-X da UPA ficou sem funcionar entre os meses de outubro e novembro de 2024 por, supostamente, ter sido danificado com “melado”, conforme noticiou o JB Litoral, com versões conflitantes sobre os motivos que levaram a UPA a ficar sem o equipamento naquela ocasião.

Máquina de Raio-X desviada de maternidade de Matinhos foi encontrada na RMC. Foto: Fabiano Nogueira/PCPR
Em novembro do ano passado, o supervisor técnico da rede Litoral da empresa Maxi Clinic, Erickson David Coelho, afirmou que derramamento de melado teria causado defeito no Raio-X da UPA de Paranaguá. Foto: Prefeitura de Paranaguá

CONTRATOS RESCINDIDOS

Com a investigação em andamento e os supostos desvios de equipamentos públicos, a Prefeitura de Matinhos anunciou que vai rescindir o contrato vigente, o qual previa a locação de um Raio-X por 12 meses, por um valor total de R$ 113.880,00, para utilização na UPA.

Nós vamos cancelar o contrato e denunciar no Tribunal de Contas”, declarou o prefeito de Matinhos, Eduardo Dalmora (PL).

A Prefeitura de Rio Branco do Sul também optou por rescindir o contrato com a Max Clinic, exonerou um servidor municipal e abriu uma sindicância para apurar o possível envolvimento de outros servidores no desvio da máquina de Raio-X que foi parar em Matinhos.

Já em nome da Prefeitura de Doutor Ulysses, quem se pronunciou foi o secretário de Saúde da cidade, Anderson da Silva. Ele revelou, em entrevista à RPC, que a Maxi Clinic foi chamada para fazer um teste de instalação do equipamento, no começo de 2023, e que o equipamento não estaria funcionando. A empresa teria se oferecido para fazer a manutenção, mas não devolveu a máquina e um contrato não chegou a ser feito.

O que ocorreu foi que o nosso aparelho apresentou defeito. A empresa recolheu o nosso e deixou um outro no lugar, mas esse outro Raio-X também deu problema“, disse o secretário, afirmando que o Município também irá registrar um Boletim de Ocorrência na Polícia.

O JB Litoral procurou a Maxi Clinic para saber qual a versão da empresa e aguarda retorno.


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