A bancada da selfie nas Câmaras do Litoral
JB No Radar
O JB No Radar vai se aprofundar nas principais discussões que movimentam os bastidores da política no Litoral, no Paraná e em todo o Brasil. Análises sobre o xadrez político, disputas regionais e os jogos de poder que moldam os rumos do país.
Tem debates que começam sérios e terminam como espetáculo. Em Matinhos, a discussão sobre o horário dos ambulantes tinha tudo para ser tratada com responsabilidade: envolve segurança pública, ordenamento da orla, impacto direto sobre quem vive da venda no pique da temporada e sobre a forma como o poder público lida com esse pessoal. Mas, no caminho, o tema virou munição para disputa política e, principalmente, para performance.

O projeto derrubado pela Câmara criou uma cena muito parecida com outras que se repetem pelas demais cidades do Litoral: grupos organizados pressionando, vereadores fazendo discursos inflamados para as redes e uma sensação de que, mais do que resolver um problema, o objetivo era criar uma narrativa de vitória. O prefeito Eduardo Dalmora (PL) seguiu reafirmando que os ambulantes nunca tiveram restrição de horário e não faltam depoimentos que confirmam isso. Na visão dele, não havia motivo para legislar sobre algo que sempre funcionou na prática. Já no Legislativo, parecia existir pressa para transformar o assunto em marco político, mesmo que o marco fosse basicamente formalizar o que já acontece todos os dias na praia.
É aí que entra o ponto mais incômodo dessa história: não adianta usar uma pauta importante só para lacrar. A política local vive um fenômeno que cresce mais rápido que fila de ambulante em dia de show grande: a institucionalização do exibicionismo. É a lógica do post, do vídeo de 20 segundos, da frase de efeito. E nessa lógica surge um grupo cada vez mais evidente: a “bancada da selfie”. Vereadores que se dedicam mais à pose do que ao processo, mais à narrativa do que ao resultado.
Esse tipo de atuação até rende engajamento nas redes, mas não entrega nada para quem precisa trabalhar na vida real. Ambulante não quer protagonizar guerra política; quer segurança quando a PM deixa a orla, quer regras claras para evitar confusão, quer poder montar o carrinho sem ter que virar peça de jogo eleitoral. O setor vive de dias bons e ruins, depende da temporada e das garantias mínimas de que não será usado como moeda de troca.
Só que muita gente no Legislativo parece preferir a abordagem da vitrine permanente. Criar um conflito, inflar a tensão, gravar o vídeo e correr para o Instagram. A Câmara, que deveria ser espaço de debate, vira cenário. A discussão, que deveria buscar soluções, vira disputa por narrativa. E quem trabalha de verdade, seja ambulante ou comerciante fixo, vira figurante nesse show de vaidades.
No fim, a pergunta que fica é simples: quem está realmente preocupado com Matinhos e as demais cidades da região, e quem só está preocupado com a própria imagem? Porque o eleitor já aprendeu a diferenciar. Ele pode até não acompanhar todos os detalhes do processo legislativo, mas capta rápido quem resolve e quem só aparece.
Matinhos não precisa de representantes que tratam temas sensíveis como palco para likes. Precisa de política pública séria, construída com coordenação, técnica e respeito à rotina de quem vive da praia. O resto é faísca e, como toda faísca, some rápido quando a temporada passa e a vida real volta a cobrar resultado.
