Renato Freitas e os socos na rua: quanto mais fala, mais difícil a situação fica


JB No Radar

O JB No Radar vai se aprofundar nas principais discussões que movimentam os bastidores da política no Litoral, no Paraná e em todo o Brasil. Análises sobre o xadrez político, disputas regionais e os jogos de poder que moldam os rumos do país.


Por Brayan Valêncio Publicado 22/11/2025 às 11h02

O vídeo da briga de rua envolvendo Renato Freitas, no dia 19 de novembro, é daqueles momentos que dispensam interpretação: ali está um deputado estadual, em pleno centro de Curitiba, trocando chutes, levando um soco que fraturou o nariz e finalizando o confronto com o homem imobilizado no chão. É simplesmente o tipo de cena que adversários políticos sonham encontrar embrulhada com laço e, dessa vez, veio com gravação em alta resolução e postagem imediata nas redes.

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O manobrista Wesley de Souza Silva afirma que nem conhecia Renato Freitas e que não cometeu injúria racial. Foto: Brayan Valêncio

Freitas diz que a história começou com injúria racial, às vésperas do Feriado Nacional da Consciência Negra. Segundo ele, o manobrista Wesley de Souza Silva teria dado um “tranco” com o carro enquanto ele e sua namorada atravessavam a rua, seguido por xingamentos e provocação. É a narrativa que ele apresentou em entrevistas e postagens: um episódio de violência racial que culminou em agressão física, e não o contrário. Ele se coloca como alguém que reagiu, não como agressor que escalou o conflito.

As novas imagens de câmeras de segurança mostram o oposto. Freitas é quem atravessa fora da faixa. É o petista quem parte para a agressão e que inicia toda a situação violenta em pleno centro da capital.

Mas, independentemente de como começou, e esse será exatamente o debate nas próximas semanas, o fato é que o vídeo mostra Freitas claramente engajado em um confronto físico. Em um dos trechos mais comentados naquele primeiro vídeo, o parlamentar dá dois chutes antes de levar o soco.

Enquanto isso, adversários aproveitam, como qualquer um faria, para montar um discurso pronto: “está aí o comportamento incompatível com o cargo”, “é reincidência”, “é quebra de decoro”.

E o pior: esse discurso pega. Não importa a versão de Freitas mais, na política, a imagem sempre chega antes da explicação. E os vídeos que circularam não são do tipo que inocentam, são do tipo que cola.

A repercussão foi imediata. Parlamentares da direita correram para pedir a cassação. O presidente Alexandre Curi (PSD) anunciou que o Conselho de Ética vai receber pelo menos cinco representações na segunda-feira (24).

Deputados que já vinham tentando desgastar Freitas desde a cassação de 2022 enxergaram a oportunidade perfeita: um episódio público, registrado, violento e difícil de enquadrar como “legítima defesa” sem que se abra margem para contestação. A briga virou combustível para pedidos de cassação antes mesmo de o nariz do deputado desinchar.

E aqui está o ponto central: Freitas parece incapaz de compreender o quanto sua margem de tolerância institucional está esgotada. Ele é alvo permanente, isso é evidente. Mas, justamente por isso, precisa estar permanentemente acima do risco e não no olho do furacão por escolhas próprias. Quando um deputado, já fragilizado por histórico de confrontos políticos e processos disciplinares, se envolve numa briga de rua, ele cria voluntariamente o cenário perfeito para ser derrubado.

Porque, convenhamos: o Parlamento não funciona numa lógica de nuance. Não importa se o episódio começou com injúria racial, com desrespeito ou com ofensa, importa que um deputado perdeu o controle, partiu para a briga e entregou munição nova em um momento em que ele deveria estar blindando a própria trajetória. Freitas sabe que é observado, sabe que qualquer deslize vira tempestade. Ainda assim, entrou num confronto físico em espaço público.

É nesse ponto que a situação dele fica delicadíssima. Os adversários já tinham vontade política de cassá-lo, agora têm imagem, têm narrativa, têm timing. O caso da igreja, lá atrás, era complexo, com controvérsia real e até discordância dentro do próprio meio católico. Aqui não: o vídeo fala sozinho, e fala alto. Ninguém precisa construir uma história complicada, é só dar play.

Deputado agora vai ser alvo dos colegas de parlamento e o único culpado por isso é ele mesmo. Foto: Brayan Valêncio.

A impressão que fica é dura, mas inevitável: Renato Freitas saiu derrotado da própria armadilha. Hoje, é difícil imaginar um cenário em que esse episódio não fortaleça um processo de cassação. Freitas entrou numa disputa de rua como se fosse um cidadão comum, mas vai ter que responder como parlamentar. E a conta, dessa vez, não parece leve.

Se a sobrevivência política dele já era frágil, agora virou gelo no sol. E foi ele mesmo quem tirou a forma da geladeira e colocou na varanda.


Sobre

Jornalista, pós-graduado em Mídias Digitais, com passagem por veículos nacionais como CNN Brasil, Jovem Pan News e Record. Atuou em rádio, TV e internet, além de ter sido colunista de política no portal RIC.com.br.