Quando o plenário vira termômetro do poder


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O JB No Radar vai se aprofundar nas principais discussões que movimentam os bastidores da política no Litoral, no Paraná e em todo o Brasil. Análises sobre o xadrez político, disputas regionais e os jogos de poder que moldam os rumos do país.


Por Brayan Valêncio Publicado 29/04/2026 às 14h25

Não foi só um bate-boca. A confusão entre os deputados estaduais Do Carmo (Podemos) e Matheus Vermelho (PL), nesta terça-feira (28), no plenário da Assembleia Legislativa do Paraná, é mais um daqueles episódios que ajudam a entender o que realmente está em jogo na política paranaense.

Deputados Do Carmo e Matheus Vermelho quase trocaram socos na Alep. Foto: Reprodução

A cena foi pública: troca de ofensas, avanço físico, intervenção de colegas e retirada de um dos envolvidos do plenário. Do Carmo reagiu após uma provocação e disparou: “Você está falando comigo, moleque? Filhinho de papai?”, antes de ser contido por outros parlamentares. A sessão seguiu normalmente, mas o clima já não era mais o mesmo.

O que estava por trás, no entanto, não era apenas um desentendimento pessoal. O episódio ampliou uma disputa antiga e estratégica dentro da Alep: o controle sobre o orçamento do Estado. Mais especificamente, a volta das chamadas emendas impositivas ao radar dos deputados.

A discussão, que vinha acontecendo de forma reservada, ganhou corpo nas últimas semanas e agora aparece de forma explícita. O motivo é político e tem data: eleições de 2026.

Com o senador Sergio Moro (PL) despontando como favorito nas pesquisas para o Governo do Paraná, parte dos deputados já faz conta. A avaliação é de que um eventual novo governo pode restringir ainda mais a liberação de recursos por meio de emendas.

Diante desse cenário, a reação é antecipada. Parlamentares tentam garantir, ainda neste ciclo, a aprovação de um mecanismo que obrigue o Executivo a pagar as emendas indicadas por eles, reduzindo a dependência política do governo de plantão.

Não é uma discussão nova. Tentativas semelhantes já foram feitas nos governos de Beto Richa (PSDB) e Ratinho Junior (PSD), sempre barradas após articulação do Executivo.

Em 2023, o movimento chegou mais perto de avançar. Um grupo de deputados protocolou uma proposta para destinar 2% da receita corrente líquida do Estado às emendas individuais. O valor, na época, representava cerca de R$ 16 milhões por parlamentar.

A proposta perdeu força depois que o governo ampliou a distribuição de recursos entre os deputados, reduzindo a pressão interna. É aí que a história ganha um contorno ainda mais interessante.

Naquele momento, Do Carmo e Matheus Vermelho estavam do mesmo lado. Defendiam juntos a criação das emendas impositivas. Agora, aparecem em lados opostos, ou pelo menos, em posições tensionadas dentro do mesmo debate.

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Segundo relatos de deputados que acompanharam a discussão, o estopim foi justamente a possibilidade de retomar o projeto. A resposta atravessada, com acusação de alinhamento ao governo, acendeu o pavio. O plenário virou palco, mas o conflito é estrutural.

No fundo, o que está em disputa é autonomia política. Com emendas impositivas, deputados ganham poder direto sobre uma fatia do orçamento. Sem elas, seguem dependentes da boa vontade do Executivo. E isso, em ano pré-eleitoral, pesa ainda mais.

A confusão desta terça não resolve o impasse. Mas deixa claro que o tema voltou com força e, desta vez, em um contexto mais sensível: o de transição de poder.

Resta saber se o governo Ratinho Junior terá espaço político para conter novamente o avanço da proposta ou se a Assembleia vai, enfim, conseguir virar esse jogo.

Porque, no fim das contas, o que começou como bate-boca é só o sintoma mais visível de uma disputa muito maior.


Sobre

Jornalista, pós-graduado em Mídias Digitais, com passagem por veículos nacionais como CNN Brasil, Jovem Pan News e Record. Atuou em rádio, TV e internet, além de ter sido colunista de política no portal RIC.com.br.