“Biomídias” são encontradas em Pontal do Paraná e na baía de Paranaguá
Comunidades de Pontal do Paraná e Paranaguá se depararam, nesta semana, com peças plásticas incomuns nas praias e nas baías. Pesquisadores tiveram conhecimento e identificaram o material como “biomídias plásticas”, muito utilizadas para tratamento de esgoto. A mesma ocorrência foi registrada em 2023, no entanto, desta vez, uma maior quantidade foi constatada.

A pesquisadora Renata Hanae Nagai é professora do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Laboratório de Proxies Marinhos para o Futuro do Oceano (ProxyMar). Uma das suas linhas de pesquisa é a poluição por microplásticos em ambientes costeiros.
Renata está à frente da pesquisa que procura entender como e por qual motivo as peças estão indo parar nas praias de Pontal do Paraná e na baía de Paranaguá. As chamadas “biomídias plásticas” (termo usado pela indústria de saneamento) são pequenas e perfuradas usadas para o tratamento de águas residuais domésticas, industriais e agrícolas.
“Essa é a segunda vez que aparecem nas praias do Litoral do Paraná. Na primeira, em maio de 2023, foram observadas nas praias de Pontal do Paraná, Ilha do Mel e Superagui. E agora, desde segunda-feira (13), recebemos várias mensagens de moradores de Pontal do Paraná nos avisando sobre a presença de grandes quantidades nas praias”, disse Renata.
Ineditismo
Desde agosto de 2023, pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Universidade de São Paulo (USP) monitoram a presença das biomídias no balneário de Pontal do Sul. Esse é o primeiro trabalho a reportar a presença dessa poluição plástica no litoral brasileiro.

Ao todo, foram encontradas 749 biomídias em 11 das 14 praias amostradas no Litoral do Paraná, principalmente em Pontal do Paraná, mas também na Ilha do Mel e na Ilha do Superagui.
No trabalho publicado em 2023, o padrão de distribuição indicava que a fonte dessas peças estava localizada no interior da baía de Paranaguá. Agora, os pesquisadores querem saber se o padrão de distribuição dessa vez é semelhante para poder confirmar a fonte.
“Um ponto importante é que, até o momento, do que nos foi relatado, parece que dessa vez há uma quantidade de biomídias muito maior do que em 2023”, afirmou Renata.
Segundo a pesquisadora, o despejo irregular das peças no meio ambiente pode estar relacionado com empresas que realizam o serviço de tratamento de água e esgoto. Porém, também pode ter relação com empresas particulares de grande porte que atuam na região e que possuem estações de tratamento de água residuais próprias.
“Sem saber qual o modelo de biomídias empregado por cada empresa, fica difícil determinar a fonte do vazamento”, destacou Renata.
A tecnologia traz benefícios para o tratamento de águas residuais e é utilizada no mundo todo, de acordo com a professora. Ou seja, o problema não é o uso, mas sim a necessidade de melhores mecanismos para evitar que elas cheguem ao meio ambiente.
A hipótese apontada em 2023 é que a distribuição dessas biomídias teve origem em alguma estação de tratamento de águas residuais no interior do Complexo Estuarino de Paranaguá, que utilizam o sistema da tecnologia Moving Bed Biofilm Reactor (MBBR).
Relatório técnico
“Nós vamos ao campo para identificar o padrão de distribuição das biomídias. Vamos analisar esse material para marcadores de esgoto e compilar estes dados em um artigo científico e um relatório técnico, que será entregue às autoridades locais, como fizemos em 2023”, explicou Renata.
O relatório deve ficar pronto de um a dois meses, período em que as amostras serão processadas. O grupo de pesquisa está em contato com IAT (Instituto Água e Terra), ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), Prefeitura de Pontal do Paraná e Ministério Público Federal (MPF). Os órgãos foram atualizados via e-mail com a informação da presença das biomídias no Litoral do Paraná.
Riscos ao meio ambiente
Esses materiais podem causar danos ao meio ambiente, de acordo com informações da UFPR. Os itens plásticos maiores podem se degradar e se tornar microplásticos, que tendem a interagir com um maior número de organismos marinhos, inclusive organismos filtradores como a ostra e o mexilhão, além de oferecerem risco à fauna local.
A Universidade aponta que a melhor forma de mitigar a poluição plástica nos ambientes costeiros e marinhos é ampliar os cuidados no manejo e no local de utilização, ou seja, nas estações de tratamento de águas residuais, evitando, assim, perdas e a introdução dessas partículas no meio ambiente.
“É crucial a comunicação e o trabalho em conjunto entre os responsáveis pelas estações de tratamento e as autoridades locais”, evidenciou Renata.
Prefeito acionou órgãos de fiscalização
O prefeito de Paranaguá, Adriano Ramos (Republicanos), esteve no bairro Jardim Figueira, na terça-feira (14), acompanhado de representante do IAT e da Paranaguá Saneamento, empresa que presta o serviço no município; e do secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento Rural e Pesca, Marcio Vega.

“Vamos fazer um encaminhamento ao Ministério Público Federal, porque isso é crime ambiental, isso já contaminou a nossa baía. Vamos continuar fazendo a fiscalização”, divulgou o prefeito nas redes sociais.
O que diz a Paranaguá Saneamento
Em nota enviada ao JB Litoral, a empresa Paranaguá Saneamento informou que, no dia 10 de outubro de 2025, foi registrada uma elevação pontual e extraordinária do nível em tanques da
Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Emboguaçu.
Confira a nota de esclarecimento na íntegra:
“Assim que o fato foi identificado, a equipe operacional da concessionária atuou de forma imediata, adotando medidas de contenção. Além disso, a Paranaguá Saneamento acionou
o Instituto Água e Terra (IAT), órgão ambiental responsável, e iniciou o plano de reparação alinhado com o órgão, que inclui: instalação de gradeamento adicional; instalação de barreira de contenção na saída do efluente tratado; e mobilização para atuar nas áreas afetadas.
A empresa ressalta que, mesmo durante o ocorrido, a Estação de Tratamento manteve seu funcionamento dentro dos parâmetros técnicos, garantindo a continuidade e eficiência do serviço prestado. A Paranaguá Saneamento reforça seu comprometimento com a transparência, a responsabilidade ambiental e a qualidade das operações, trabalhando continuamente para assegurar o melhor atendimento à população parnanguara”.
