De janeiro a maio, 46 vazadas foram registradas pela PM em Paranaguá; Força Nacional atua para combater os casos


Por Luiza Rampelotti Publicado 01/07/2022 às 09h53 Atualizado 17/02/2024 às 11h40

Nos últimos meses, os moradores de Paranaguá devem ter observado uma diminuição no número das ‘vazadas’, crime popular na cidade portuária. Quem afirma que as ocorrências diminuíram é a própria Polícia Militar (PM) e, segundo o órgão, o motivo foi a chegada da Força Nacional ao município, no início de maio, com o intuito de combater os casos.

As ‘vazadas’ consistem na abertura de bicas e tombadores dos caminhões que trafegam em baixa velocidade pelo perímetro urbano. Com isso, a carga que cai na pista, geralmente grãos, é varrida, ensacada e furtada por indivíduos que, posteriormente, realizam a comercialização do produto.

No entanto, o problema é muito mais grave do que o constatado até aqui: a questão impacta negativamente na segurança dos caminhoneiros, das pessoas envolvidas no crime, dos motociclistas que trafegam pela pista após o derramamento dos produtos, além de afetar a sociedade como um todo, gerando mau cheiro na cidade e, principalmente, prejudicando o próprio complexo portuário, que perde milhares de toneladas de grãos por ano e que deveriam estar sendo exportados.

Para auxiliar no combate ao crime, a Força Nacional de Segurança Pública chegou à cidade em 4 de maio e deve continuar até 30 de novembro. De acordo com o órgão de segurança, existe a possibilidade de prorrogação da operação.

Diminuição dos casos


A Força Nacional é composta por policiais militares, bombeiros militares, policiais civis e profissionais de perícia dos estados. O grupo atua em fronteiras, presídios, reservas ambientais, áreas indígenas, policiamento ostensivo e em situações de Garantia de Lei e da Ordem. Eles estão em Paranaguá a pedido do Governo do Estado, autorizados pela Portaria nº 94 do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Apesar de o órgão não responder ao JB Litoral se a presença dos agentes está, de fato, inibindo a ocorrência das ‘vazadas’, e nem quantos casos já foram atendidos durante os quase dois meses na cidade, o major Cristiano Stocco Rosa, subcomandante do 9º Batalhão da Polícia Militar (BPM), afirma que há registro de queda no número de casos.

De acordo com ele, de janeiro a maio deste ano, o 9º BPM registrou 46 ocorrências. Foram 16 em janeiro, 10 em fevereiro, 6 em março, 8 em abril e 6 em maio, quando a Força chegou. Em junho os números ainda não foram computados, porém, um levantamento feito pelo JB Litoral mostra que, ao menos, duas vazadas aconteceram neste mês: no dia 1º e no dia 16.

Subcomandante do 9º BPM, major Stocco, revela que Paranaguá registra 300% a mais de casos do que outras cidades. Foto: Luiza Rampelotti/JB Litoral


300% de casos a mais do que em outras cidades


Major Stocco explica o trabalho da PM no que diz respeito ao crime e a integração com a Força Nacional. “Viemos trabalhando nisso com a operação Safra e outras diretamente voltadas à vazada. Temos duas frentes: o preventivo, que seria o patrulhamento nos pontos base, e o repressivo, ou seja, realizando operações com levantamento do serviço de inteligência, quando vamos até alguns armazéns que compram o produto de vazada ilegal, abordando, levando órgãos de fiscalização etc., com o objetivo de recolher esse produto e descapitalizar esse comércio”, diz.

Ele ainda choca ao revelar que, no Estado, Paranaguá é a ‘campeã das vazadas’, são cerca de 300% de casos a mais do que em outros locais. O major expõe que o crime é local, sendo raro de acontecer em outras cidades, mesmo que portuárias. 

O subcomandante avalia a ‘vazada’ como, além de um problema de segurança, um problema social. “É o caminhoneiro que foi parado, teve o derramamento do material na pista, o motociclista que passa e cai, o mau cheiro, as pessoas no meio da pista podendo ser atropeladas, os grãos que deixam de ser exportados pela Portos do Paraná. Mas, também, existe uma questão social porque já deveriam ter realocado as pessoas daquele buraco que é a Vila São Jorge, tirando-os dali e colocando num lugar mais condizente a gente conseguiria inibir muita coisa. A vazada é um problema muito maior, é de Estado, de políticas públicas de segurança, social, de educação e antidrogas. Ela é usada como moeda de troca, o usuário vai com um saco de produto e troca por três pedras de crack”, comenta.


Combate deve ser feito por vários órgãos de segurança


No entanto, ele destaca que não é apenas a PM que realiza o serviço de combate ao crime, uma vez que a maioria dos casos ocorre em trecho rodoviário, de circunscrição da Polícia Rodoviária Federal (PRF). “O combate à vazada não é só por um órgão de segurança, mas por vários. É a PRF, PM, Guarda Municipal, Guarda Portuária, Polícia Ambiental, a Força Nacional que veio apoiar”, diz.

Nesse sentido, major Stocco ressalta que a Polícia Militar tem tratado, junto com a Guarda Portuária, sobre um projeto datado de 2018 que prevê a instalação de câmeras no eixo portuário. Ele ainda comenta que a corporação propôs à Portos do Paraná a instalação de lâmpadas de LED e energia solar no viaduto Nelson Buffara, na BR-277, região onde há mais incidência das vazadas.

Uma das coisas que favorece a vazada é a falta de iluminação no viaduto. Propusemos a instalação com LED e energia solar, hoje tem tecnologia para isso. Mas ali é área do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes – DNIT”, conta.

Ele também ressalta que a Polícia Militar tem outros “problemas que são maiores que a própria vazada, como homicídio, tráfico de drogas, roubo, furto, perturbação de sossego” para combater. “Apesar de os crimes acontecerem em circunscrição federal, ainda assim atuamos, não fechamos os olhos para isso. Talvez não consigamos fazer o que gostaríamos, mas, na medida do possível, fazemos o que podemos”, diz.

Guarda Portuária atua com “muita restrição


O diretor empresarial da Portos do Paraná, André Pioli, afirma que a empresa pública já instalou a fiação elétrica na área do viaduto Nelson Buffara por cinco vezes. Em todas, os fios foram roubados pouco tempo depois e, atualmente, não há qualquer iluminação no local.

O processo público é muito demorado, já fizemos cinco vezes os reparos dos cabos de energia do viaduto, até a última vez, agora não podemos fazer mais. Tem que haver outros mecanismos de cuidado para que se tome conta daquela região, para que não aconteça mais o roubo da fiação elétrica”, informa Pioli.

Ele ainda destaca que, nos últimos dias, há poucas notícias sobre casos de vazada na cidade. “O porto, junto com o governador do Estado, chamou a Força Nacional para cuidar especificamente desse problema. Existem 30 homens combatendo o crime, prendendo as pessoas envolvidas. Diminuiu muito os casos, antes se ouvia falar de ocorrências todos os dias”, comenta.

Já o Gerente da Unidade Administrativa de Segurança Portuária (UASP), que gerencia a Guarda Portuária, major Cesar Kamakawa, afirma que o órgão atua em apoio às forças de segurança. “Porém, com muita restrição devido ao próprio local onde normalmente estão ocorrendo as vazadas, que é fora do alcance da Unidade de Segurança”, finaliza.

Gerente da Guarda Portuária, major Kamakawa, afirma que o órgão atua com muita restrição devido aos locais onde acontecem as vazadas, que é fora do porto de Paranaguá. Foto: Claudio Neves/ Portos do Paraná