Iniciativa do CMAAE de Matinhos propõe manuais inéditos para apoio a crianças com TEA e desponta como possível case de sucesso


Por Gabriela Perecin Publicado 13/04/2026 às 14h37

A educação inclusiva voltada a crianças e adolescentes com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um direito garantido pela legislação. No entanto, ainda enfrenta desafios diante do aumento no número de laudos e da necessidade de formação continuada das equipes pedagógicas nas escolas.

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CMAAE apostou na formação de uma equipe técnica para oferecer atendimento educacional adequado para alunos com TEA. Foto: Maisy Pires/JB Litoral

Em Matinhos, foi iniciada uma formação de 180 horas para profissionais de apoio que atuam na rede municipal com alunos que possuem laudo e apresentam dificuldades de aprendizagem. A capacitação seguirá ao longo de todo o ano, com base em materiais desenvolvidos especificamente para auxiliar a atuação em sala de aula.

O material consiste em sete manuais que funcionam como guias práticos, com base na legislação vigente, como o Decreto nº 12.686, de outubro de 2025, que instituiu a nova Política Nacional de Educação Especial Inclusiva (PNEEI) no Brasil. A iniciativa pode tornar o município referência em tecnologia social inclusiva, por ser passível de replicação em outras cidades.

Estrutura para atendimento

A secretária de Educação de Matinhos, Célia Amaral, explicou ao JB Litoral que, no início do ano de 2025, a pasta percebeu que a rede municipal não atendia a demanda de estudantes que precisavam de atendimento, sendo possível realizar apenas 10 ao mês.

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CMAAE oferece atendimento educacional especializado para estudantes em Matinhos. Foto: Maisy Pires/JB Litoral

“Hoje, temos o CMAAE e estrutura com equipe técnica. Além de avaliar a criança, a equipe faz o atendimento. Atualmente, temos três psicólogos, um fisioterapeuta, duas assistentes sociais, três psicopedagogas, fonoaudióloga e terapeuta ocupacional”, afirmou Célia.

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Nós apostamos em uma equipe técnica que faz um trabalho excelente”, disse a secretária municipal de Educação. Foto: Maisy Pires/JB Litoral

O atendimento é voltado a sete escolas e 15 Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs). Célia adiantou que a intenção é avançar com a criação de um Centro de Autismo, que concentre atendimentos de saúde e educação em um mesmo espaço.

“Já estamos desenhando o projeto de construção, o prefeito acredita muito na inclusão. Com a equipe pequena que temos, nós já alcançamos demais. Nós apostamos em uma equipe técnica que faz um trabalho excelente”, disse a secretária municipal de Educação.

A rede de Matinhos tem, no total, 292 estudantes com diagnóstico de Transtorno do Espetro Autista (TEA), como explicou a coordenadora do Centro de Avaliação e Atendimento Especializado (CMAAE) e chefe da divisão de Ensino Especial de Matinhos, Rosane Francisco Alves.

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Coordenadora do CMAAE e chefe da divisão de Ensino Especial de Matinhos ressalta a organização para atender a demanda do município. Foto: Maisy Pires/JB Litoral

“Estamos nos organizando para atender a demanda. Começamos a chamar 20 profissionais de apoio no ano passado e agora estamos contratando mais 20″, destacou Rosane.

Manuais são case de sucesso

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O fisioterapeuta especialista em TEA, Carlos Dacheux, elaborou os manuais a partir do trabalho desenvolvido no CMAAE. Foto: Maisy Pires/JB Litoral

O fisioterapeuta do CMAAE, Carlos Dacheux do Nascimento Neto, é especialista em Fisioterapia Cardiorrespiratória, mestre em Ciências da Educação, professor universitário e possui pós-graduação em Autismo. É a partir dessa última formação que lidera o curso para profissionais em Matinhos e tem contribuído para a prática em sala de aula por meio da elaboração dos manuais.

“Todo esse material poderá ser acessado por toda a rede de ensino, pela população local, regional, nacional e, também, internacional, para democratizar o acesso ao saber especializado e garantir que a inclusão deixe de ser apenas uma meta no papel para se tornar um direito vivido, todos os dias, por cada criança e cada família, não importa onde elas estejam”, disse Carlos.

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São sete manuais com orientações práticas sobre como contribuir com o desenvolvimento de crianças com o diagnóstico. Foto: Maisy Pires/JB Litoral

Com uma linguagem facilitada, os manuais que desenvolveu ajudam os profissionais de apoio a aplicarem a teoria de forma mais fácil e eficaz, dentro do que diz a legislação atual. “Os manuais têm tudo que os profissionais precisam para conhecer as crianças. Estamos dando tudo para o Brasil de forma gratuita”, afirmou.

Os sete manuais formam uma coletânea de orientações práticas. “Traduzimos o vocabulário, que é muito técnico, para a linguagem dos profissionais de apoio. Meus manuais são a minha resposta a essa luta: é conhecimento técnico se tornando um abraço e uma solução prática para que nenhuma família de Matinhos, ou do Brasil, precise caminhar no escuro”, declarou o fisioterapeuta.

Segundo ele, devido ao material inédito, Matinhos pode ser conhecida como a cidade da inclusão. “O gargalo do Brasil inteiro está em transformar a parte da legislação em prática. E isso nós estamos fazendo. Queremos que essa criança esteja em sala de aula aprendendo e não só ocupando espaço”, ressaltou.

Encontro mudou seu rumo profissional

Sua trajetória começou longe da neurologia, mas foi a partir de um convite para conhecer um programa de equoterapia, em Fazenda Rio Grande, que ele se encantou pelo trabalho — momento que se tornou um divisor de águas em sua vida profissional.

“Cercado por dezenas de crianças atípicas e seus pais, pude ver de perto não apenas a deficiência, mas a esperança daquelas famílias. Foi uma experiência fascinante, que me tocou de um jeito que eu não conseguia mais ignorar. A partir daquele dia, nunca mais consegui largar a área da neurodivergência. Saí da fisioterapia hospitalar para formar a primeira equipe de equoterapia de Paranaguá”, explicou Carlos.

“Minha motivação não veio de um diagnóstico em casa, mas do olhar de cada mãe e de cada aluno ou praticante, como chamamos na equoterapia, que me mostrou que a inclusão não é apenas um termo técnico, é um ato de amor e de justiça social”, concluiu.

Trabalho abrange famílias e dificuldades dos estudantes

Além dos manuais, os técnicos desenvolvem três projetos nas escolas, um deles voltado para a leitura e escrita no 3º ano do Ensino Fundamental, além de habilidades matemáticas. É realizado, também, um projeto com foco na seletividade alimentar, outro critério que pode estar presente no diagnóstico de TEA nas escolas, no qual as crianças têm contato direto com alimentos que recusam.

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Marlize falou ao JB Litoral sobre os projetos desenvolvidos pelos profissionais do CMAAE. Foto: Maisy Pires/JB Litoral

“Os pais já nos retornam de forma positiva após esse projeto, dizendo que os filhos começaram a aceitar certos alimentos”, disse a coordenadora de atendimento do Centro Municipal de Avaliação e Atendimento Especializado (CMAAE), Marlize Freire Viana Feliciano.

Enquanto algumas profissionais atuam na área de seletividade alimentar, uma psicóloga propõe rodas de conversa com pais e professores. Já o terceiro projeto, Cultura de Paz, busca lidar com questões de agressividade no ambiente escolar.

O que mudou com a nova legislação

O Decreto nº 12.686/2025, de outubro de 2025, atualizado em dezembro pelo Decreto nº 12.773/2025, instituiu a nova Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, garantindo apoio a alunos com TEA. A principal mudança é a desobrigação de laudo médico para ter direito ao profissional de apoio, que exige nível médio e capacitação mínima de 80 horas.

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