Médicos do Regional denunciam falta de anestesistas, cirurgias canceladas por instrumentos sujos e exercício ilegal de especialidade
Desde julho, o JB Litoral vem dando voz a profissionais da saúde que atuam no maior hospital da região. O Hospital Regional do Litoral (HRL), em Paranaguá, é a única unidade de alta complexidade responsável por atender os moradores dos sete municípios litorâneos. Porém, denúncias de servidores — desde trabalhadores da área administrativa até médicos — apontam problemas graves que podem comprometer o atendimento à população.

Os questionamentos começaram com o novo edital de credenciamento médico, publicado pela Fundação Estatal de Atenção em Saúde do Estado do Paraná (Funeas), que alterou, entre outros pontos, as escalas dos plantonistas. Algumas especialidades passaram a atuar em plantão remoto (sobreaviso), sendo acionadas apenas em casos de necessidade. A mudança gerou manifestações até de representantes da sociedade civil organizada, mas a Funeas alega ter feito os ajustes necessários e manteve o novo modelo, mesmo com o edital anterior ainda vigente.
Sem a resolução do impasse, novas denúncias chegaram ao JB Litoral. Desta vez, médicos que atuam no corpo clínico e cirúrgico da unidade relataram outros problemas graves, como os que expõe os pacientes ao potencial risco de infecções; falhas que levaram ao cancelamento de cirurgias e a atuação de médico como anestesista sem o devido registro da especialidade.
As novas denúncias
Segundo os profissionais, que terão as identidades preservadas para assegurar o sigilo de fonte e a própria segurança, os problemas vão desde questões básicas de um hospital, como a esterilização e a qualidade dos instrumentos cirúrgicos, até situações mais complexas, como a suposta conivência da Funeas com uma empresa credenciada que mantém, em seu quadro e escalas, um profissional não habilitado para atuar como médico anestesista.
“Já tínhamos anestesiado o paciente, abri cinco materiais, todos estavam sujos. Tive que cancelar a cirurgia e explicar ao paciente o porquê de ele não ter sido operado”, relata o médico cirurgião, ao JB Litoral.
Os materiais a que o profissional se refere são instrumentos cirúrgicos que passam por procedimento de esterilização em máquinas de autoclave dentro do HRL. Segundo o médico, havia o risco de infecção ao paciente caso os instrumentos tivessem sido utilizados.
Sobre o caso, a reportagem teve acesso ao que disse um dos membros da direção do Regional.
“A gente tem todo o material, tem o pessoal, só que eu acho que está havendo algum tipo de retaliação da parte deles. Enfim, precisamos rever o treinamento que está sendo feito. Estávamos com a ideia de terceirizar a esterilização de todo o nosso material, porque estamos tendo muita infecção de parede, está tendo muita casuística de infecção que, de repente, poderia ser evitada se o material fosse melhor esterilizado”, afirma o diretor.
Em conversa com o JB, o profissional que atua entre os cirurgiões da unidade também contou que, posteriormente, foram realizados testes para saber se as manchas encontradas nos instrumentos eram restos de sangue e outros resíduos humanos, mas que as análises seriam prejudicadas pela sujeira aderida ao material.
“Depois fizeram supostos testes biológicos para alegar que materiais com esse aspecto eram inócuos, mas a presença de uma camada de sujeira aderida ao material invalida o teste biológico”, diz.
O cancelamento da cirurgia em questão não teria sido o primeiro e o caso foi repassado às autoridades policiais e, na última semana, ao Ministério Público do Paraná (MPPR).
Denúncias oficializadas
No documento enviado ao MPPR, os profissionais de saúde detalharam o que viram nos instrumentos: “ferrugem e oxidação visíveis em superfícies e zonas de junção; sinais de corrosão localizada em articulações e travas; sujidades aderidas (de natureza não determinada) que se desprendem ao atrito com gaze durante limpeza manual, evidenciando acúmulo de resíduos; persistência de resíduos sólidos mesmo após autoclavagem, o que invalida a eficácia do processo por falha intrínseca da etapa de limpeza”.



Na denúncia, os profissionais ressaltam que as queixas foram encaminhadas à direção do hospital, mas, além de não serem solucionados, os problemas ainda resultam em represálias contra quem os relata.
“Interrupções frequentes do fluxo de cirurgias por problema na autoclave, materiais cirúrgicos úmidos, presença de elementos estranhos análogos a material ósseo, gerando dúvida fundada quanto à efetividade dos ciclos. Há queixas reiteradas de profissionais encaminhadas à direção técnica/chefias e registros de infecção hospitalar pós-operatória sob questionamento, sem adoção de correções efetivas até o momento, o que denota ciência gerencial e possível omissão administrativa. Pelo contrário, notam-se represálias aos profissionais que reclamam das condições dos materiais”, revela o documento ao qual o JB Litoral também teve acesso.
“Jeitinho” nas escalas
Outro ponto revelado pelos médicos que procuraram a reportagem foi sobre as escalas de plantonistas na área de anestesia, essencial para a realização dos mais diversos procedimentos cirúrgicos, sobretudo os de urgência e emergência. De acordo com outro médico que falou ao JB Litoral, cada escala deveria contar com três anestesistas de plantão, mas não é o que ocorre, segundo ele.

“Eles ficam em dois, só que sempre tem registro de três, porque na hora do almoço, o que estava pela manhã no HRL, vai para outra unidade da região e o que estava na outra vem para cá. Assim, vai ter o carimbo dele, as prescrições dele, então fica registrado como se houvesse três na escala, quando na verdade só havia dois. Isso acontece todos os dias, mesmo com reiterados avisos à direção”, denuncia o profissional.
No último dia 13, antevéspera de feriado nacional, havia apenas um médico anestesista escalado durante o dia, conforme escala à qual a reportagem teve acesso. A empresa estaria recebendo para cumprir a escala integral, com três anestesistas no período diurno e outros três no noturno.
Anestesista sem registro
Além da carência de médico especialista em anestesiologia, mantido por empresa credenciada pela Funeas para disponibilizar os profissionais a cada plantão, um terceiro especialista buscou o JB Litoral para expor algo que não poderia acontecer: a atuação de um médico como anestesista sem possuir o RQE (Registro de Qualificação de Especialidade).
O documento, emitido pelo Conselho Regional de Medicina (CRM), comprova a formação do médico em determinada área e assegura que ele possui a qualificação necessária para atuar na especialidade.
O médico que atua no HRL é estrangeiro, tem seu diploma de Medicina revalidado legalmente no Brasil e registro no CRM-PR, mas não tem RQE.
“Esse anestesista que está na escala há dois meses, não foi habilitado pela Funeas e, ainda assim, segue sendo mantido nos plantões e a direção não notifica a Funeas“, denuncia o profissional da saúde.
O documento que comprova a informação do médico indica que o profissional que atua no HRL apresentou um certificado de residência em anestesiologia feita em outro país, mas não apresentou a revalidação do título nem o RQE, resultando na classificação de “não habilitado”.
O assunto também foi citado na denúncia enviada ao Ministério Público.
“Tratamento desigual é conferido à empresa credenciada, que mantém profissional atuando como anestesiologista sem registro de qualificação de especialidade (RQE), exercício irregular da Medicina, enquanto empresas anteriores foram impedidas de suprir a falta de especialistas mediante o uso de médicos residentes em fase final de formação, sob alegação de ‘falta de titulação’”, afirma.
Descarte sem biópsia
O documento enviado ao Ministério Público tem 52 páginas, imagens e documentos anexos. Nele, os médicos denunciantes também expõem outro fato grave: o descarte de amostras coletadas de pacientes, algumas com suspeita de câncer, mas que teriam sido jogadas no lixo por determinação de membros da direção do hospital, sem passar por análise laboratorial.
“Foram descartadas peças cirúrgicas e biópsias retiradas de pacientes, inclusive aquelas com suspeita clínica de neoplasia, sem qualquer exame histopatológico prévio. As peças, provenientes de diversos procedimentos cirúrgicos, foram deliberadamente eliminadas sob a justificativa de ‘contenção de custos’, contrariando frontalmente os protocolos médico-legais, sanitários e éticos que obrigam a preservação e o encaminhamento do material anatômico ao serviço de patologia para análise obrigatória, quando solicitado pela equipe médica”, diz a denúncia.
O relato ainda detalha que a enfermeira responsável pelo setor não concordou com a determinação e exigiu assinatura da direção técnica para realizar o descarte.
“A decisão foi formalizada por escrito em documento interno, em que a enfermeira responsável, em desacordo com a decisão da direção, requereu expressamente aos diretores técnicos documento por escrito com a ordem para o descarte, documento que foi feito, revelando ato administrativo doloso, espúrio, obnóxio, não apenas irregular, mas intrinsecamente ilícito, imoral e quase inacreditável. Jogar no lixo as biopsias dos pacientes”, afirmam os denunciantes.
Espaço às respostas
Diante da gravidade das denúncias, o JB Litoral procurou a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) nos dias 14, 18 e 21, ocasião em que a pasta informou que só teria como se pronunciar a partir desta segunda-feira (24).
A reportagem também entrou em contato com a empresa credenciada pela Funeas para fornecer a mão de obra especializada em anestesiologia e aguarda retorno.
O espaço segue aberto aos posicionamentos dos envolvidos.
