Paranaguá está entre as 50 cidades com mais de 100 mil habitantes com taxas mais altas de estupros do País
Paraná lidera índice com 12 municípios na lista
O 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado neste ano com dados referentes a 2024, revela estatísticas criminais por Estado, como crimes contra o patrimônio, mortes violentas, injúria racial, violência doméstica e sexual, além de violências contra crianças e adolescentes. No documento, Paranaguá aparece entre as 50 cidades, com mais de 100 mil habitantes, com taxas mais elevadas de estupro e estupro de vulnerável do País, ocupando o 41º lugar.

A análise, segundo informações do Anuário, é produzida a partir de dados dos registros policiais e das Secretarias Estaduais de Segurança Pública e/ou Defesa Social. Quem lidera a lista é a cidade de Boa Vista (RR), que tem cerca de 410 mil habitantes.
O estupro e estupro de vulnerável, no total, alcançaram em 2024 uma taxa de 41,2 casos por grupo de 100 mil habitantes, um crescimento de 0,9% em relação ao ano anterior. Em números absolutos, foram registradas 87.545 vítimas no Brasil em 2024, o maior volume desde o início da série histórica acompanhada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2011.
O documento destaca que esse tipo de crime compõe o núcleo central das estatísticas de violência sexual não apenas ao volume de registros, mas também ao tipo penal que expressa mais claramente a relação entre violência de gênero e poder sexual. “Frequentemente, os autores são familiares, conhecidos ou pessoas próximas, o que reforça a ideia de que esses crimes não derivam apenas de impulsos individuais, mas de estruturas sociais permissivas e de desigualdades consolidadas”, relata o Anuário.
Violência sexual contra crianças e adolescentes
Do total de casos de estupro registrados em todo o País, 23,2% se trata de estupro e 76,8% de estupro de vulnerável. O delegado do Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria) da Polícia Civil, Emmanuel Brandão, falou ao JB Litoral que os dados são relevantes pois direcionam políticas de prevenção e repressão a esses tipos de crime.
“A exemplo de ações preventivas, como palestras, divulgação das formas de violência e de denúncia que ocorrem durante todo o ano, como também de ações repressivas, como incremento das equipes de investigação, tudo visando a rápida finalização de inquéritos policiais e o rápido cumprimento de mandados de prisão de crimes contra a dignidade sexual”, disse Emmanuel.
Segundo o delegado, em 2024, o Nucria de Paranaguá fez 45 ações educativas e cumpriu 33 mandados de prisão, além de finalizar 330 inquéritos policiais, com redução significativa do acervo desta área especializada. Neste ano de 2025, já foram realizadas mais de 20 prisões e 30 ações educativas envolvendo crimes de violência contra a criança e adolescente.
Em análise sobre o índice e a colocação de Paranaguá entre os municípios com mais de 100 mil habitantes com maior taxa de estupro e estupro de vulnerável, o delegado acredita que a cidade está inserida em um fenômeno de múltiplas causas: cultural, social e econômico.
Paranaguá vive um momento, de acordo com ele, de aumento da quantidade de denúncias, fatos que foram silenciados pelas vítimas ao longo dos anos, e que, a partir de um trabalho da Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente, as pessoas se mobilizaram para identificar e denunciar os autores dos crimes.
“Não se deve desconsiderar que esses dados do anuário, em sua maioria, são firmados a partir do registro do Boletim de Ocorrência. Entretanto, durante as investigações, vários fatos que são inicialmente capitulados como estupro de vulnerável, por exemplo, não se confirmam, tratando-se, em verdade, de falsas denúncias ou de falsas interpretações, fator que também faz inflar os índices estatísticos”, considerou o delegado.
Paraná lidera lista
Sobre os casos de estupro, o Paraná lidera o índice em número de cidades, com 12 na lista. Além de Paranaguá, aparecem Araucária (11º lugar), Francisco Beltrão (14º), Colombo (16º), Piraquara (21º), Ponta Grossa (22º), Toledo (24º), Guarapuava (28º), Fazenda Rio Grande (30º), Almirante Tamandaré (32º), Campo Mourão (39º) e Foz do Iguaçu (40º).
Segundo o Anuário, trata-se de uma piora considerável, dado que no ranking anterior o Estado tinha nove municípios listados. As cidades paranaenses de Francisco Beltrão, Toledo, Campo Mourão e Foz do Iguaçu não figuravam na lista dos 50 municípios com mais estupros e estupros de vulneráveis em 2023 e estão na lista de 2024.
Já o município de Cascavel registrou melhora e não se encontra mais na lista em 2024. Apesar dos municípios de Guarapuava e Almirante Tamandaré constarem na lista em ambos os anos, caíram de posição: Guarapuava antes estava em 8º lugar, e na lista de 2024 está em 28º, e Almirante Tamandaré caiu da 9ª para a 32ª posição.
No Anuário de Segurança Pública divulgado no ano passado, com dados de 2023, Paranaguá ocupava a 40ª posição. Ou seja, caiu somente uma posição de um ano para o outro.
O Paraná também está entre os três Estados com maior número de registros, ao lado de São Paulo e Pará. “Juntos, eles concentraram 35% do total de estupros de vulnerável com vítimas do sexo feminino no país, e 32,3% dos registros envolvendo vítimas de ambos os sexos”, conforme informações do Anuário.
Perfil das vítimas
As principais vítimas de estupro no país são do sexo feminino (87,7%), com idade entre 0 e 13 anos (61,3%) e, em sua maioria, negras (55,6%). Os casos de estupro acontecem principalmente na residência (65,7%) e são praticados por familiares das vítimas (45,5%), de acordo com a estatística divulgada.
“A residência, portanto, segue sendo o principal cenário dessa forma de violência, revelando que, majoritariamente, o estupro acontece em espaços privados, muitas vezes associados à intimidade e ao convívio familiar”, ressaltou o estudo. A análise foi feita com base nas informações dos boletins de ocorrência registrados em 2024.
Caso de repercussão em Paranaguá
Um dos crimes de estupro que ganhou repercussão em Paranaguá foi o ocorrido no dia 23 de fevereiro deste ano no banheiro de um posto de combustível desativado. O pedreiro Nathan de Siqueira Menezes, de 20 anos, foi condenado a seis anos de prisão pelo crime de estupro a uma jovem.
Câmeras de segurança instaladas no local confirmaram que a vítima negou relações com Nathan, mas mesmo assim, foi forçada a entrar no estabelecimento. Ela conseguiu fugir do local e, horas depois, o boletim de ocorrência foi registrado na Delegacia de Polícia Civil.
Nathan se entregou na delegacia de Paranaguá no dia 26 de março, data em que foi efetuada sua prisão. Conforme informações apuradas pelo JB Litoral na última semana, o autor do crime continua preso.
