Paranaguá lidera ranking da Aids no Paraná e é 4º no Brasil; autoridades divergem sobre motivos


Por Thais Skodowski Publicado 09/02/2025 às 21h12
Testes rápidos são oferecidos gratuitamente pelas unidades de saúde do município. Foto: Prefeitura de Paranaguá
Testes rápidos são oferecidos gratuitamente pelas unidades de saúde do município. Foto: Prefeitura de Paranaguá

Mais uma vez Paranaguá está no topo de um dos rankings mais preocupantes e desafiadores que uma cidade pode estar. De acordo com o Ministério da Saúde, o município detém a pior situação em relação ao controle da Aids no Paraná e está em 4º lugar na classificação nacional, atrás apenas de Canoas (RS), Porto Alegre (RS) e Camboriú (SC).

Os dados são do mais recente Boletim Epidemiológico HIV e Aids – 2024, do Ministério da Saúde, e traz números consolidados até o final de 2023. No último boletim divulgado, em 2023, com dados de 2022, Paranaguá ocupava a primeira posição do Paraná, mas apenas a 18ª colocação em relação a todos os municípios do Brasil.

O estudo traça um verdadeiro Raio-X do controle do HIV/Aids em todo o país e chama a atenção para os municípios com situações mais delicadas. O ranking se baseia em um índice composto, utilizado para avaliar municípios com 100 mil habitantes ou mais.

Ele considera um conjunto de indicadores que inclui a taxa de detecção de Aids, a taxa de detecção da doença em crianças menores de 5 anos, a taxa de mortalidade e a primeira contagem de CD4 (marcador de imunodeficiência) nos últimos cinco anos.

O cenário alarmante já é bem conhecido pelas autoridades locais, mas as ações adotadas pelos gestores da área da saúde têm se mostrado insuficientes ao longo dos anos. Embora tenha havido uma redução no volume de casos de Aids detectados durante a pandemia, os números voltaram a subir nos anos seguintes, reforçando a importância do tema ser tratado com mais prioridade pelas secretarias Municipal e Estadual de Saúde.

Motivos

Questionadas pela reportagem do JB Litoral sobre os motivos do elevado índice de prevalência de HIV/Aids em Paranaguá, os órgãos da Prefeitura e do Governo do Estado têm explicações dissonantes, o que mostra um descompasso na estratégia de atuação.

Enquanto o diretor da 1ª Regional de Saúde, Leovaldo Bonfim, argumenta que um dos fatores que influenciam no grande número de casos seja mesmo o intenso fluxo de pessoas por conta da atividade portuária, a Secretaria Municipal de Saúde discorda.

“No início da epidemia, há 30 anos, a cidade portuária carregava este estigma de altas incidências, mas atualmente isso não é verdade”, disse em nota a autoridade sanitária municipal.

Divergências à parte, a segunda cidade com a pior situação em relação à Aids no Paraná também convive com um grande trânsito de pessoas diariamente. Foz do Iguaçu, na tríplice fronteira com o Paraguai e a Argentina, é um dos principais destinos turísticos do Brasil e tem se consolidado com um grande hub comercial.

Bonfim conta ainda que outro fator de risco está relacionado ao consumo de drogas e o elevado fluxo de pessoas em situação de vulnerabilidade social em Paranaguá, onde há a presença de Doenças Sexualmente Transmissíveis, como a Sífilis e o HIV, além da Tuberculose.

Secretaria Estadual de Saúde afirma que o motivo de índice alto é por Paranaguá ser uma cidade portuária; Secretaria Municipal discorda. Fotos - Claudio Neves/Portos do Paraná
Secretaria Estadual de Saúde afirma que o motivo de índice alto é por Paranaguá ser uma cidade portuária; Secretaria Municipal discorda. Fotos – Claudio Neves/Portos do Paraná

Informação é a principal arma

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, é necessário retomar a conversa sobre os riscos das doenças sexualmente transmissíveis com o público mais jovem, mas também levar o debate à população em geral. “Há um esquecimento das pessoas quando a mídia diminui o assunto. A população precisa entender os riscos, e compreender a sua responsabilidade no cuidado da sua própria saúde”, disse a nota.

As Unidades Básicas de Saúde e o Centro de Tratamento e Aconselhamento de Paranaguá fornecem o preservativo, tanto o masculino quanto o feminino, e fazem a testagem rápida de segunda a quarta-feira, das 8h às 11h.

Diagnóstico precoce

Por muitos anos, o HIV/Aids foi considerado uma epidemia silenciosa. O acesso aos testes não era tão fácil como é hoje, o que tornava o diagnóstico muito mais tardio. Com o passar das décadas, a tecnologia na área da saúde evoluiu a passos largos e a rede pública de saúde passou a oferecer gratuitamente testes rápidos, utilizando apenas algumas gotas de sangue retiradas do dedo da pessoa e que oferecem o resultado em cerca de vinte minutos.

O tratamento também foi sendo aprimorado, com a incorporação de medicamentos mais eficazes para o controle do HIV, levando o vírus a níveis até indetectáveis. Com isso, os chamados “soropositivos” podem ter vida normal, sem a manifestação da doença (Aids).

Portanto, o diagnóstico precoce auxilia tanto no processo de conter a transmissão do vírus na comunidade quanto no sucesso do tratamento do paciente, garantindo mais qualidade de vida ao indivíduo.

Leovaldo Bonfim explica, no entanto, que a procura pela testagem ainda é baixa. “Muitas pessoas acabam descobrindo a infecção quando o estágio da doença já está mais avançado, dificultando o tratamento adequado. Ao não ter conhecimento da doença, acaba propiciando a contaminação de seus contatos sexuais e disseminando a doença de forma descontrolada”, relata o diretor.

AIDS e o HIV

A AIDS é o estágio mais avançado da doença que ataca o sistema imunológico. A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, como também é chamada, é causada pelo HIV. Como esse vírus ataca as células de defesa do corpo, o organismo fica mais vulnerável a diversas doenças, de um simples resfriado a infecções mais graves como tuberculose ou câncer. O próprio tratamento dessas doenças fica prejudicado.

Há alguns anos, receber o diagnóstico de Aids era uma sentença de morte. Mas, hoje em dia, é possível ser soropositivo e viver com qualidade de vida. Basta tomar os medicamentos indicados e seguir corretamente as recomendações médicas.

Saber precocemente da doença é fundamental para aumentar ainda mais a sobrevida da pessoa diagnosticada com HIV. Por isso, o Ministério da Saúde recomenda fazer o teste sempre que passar por alguma situação de risco e incentiva a adoção de medidas protetivas como o uso do preservativo em relações sexuais.

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