Caso Hospital Regional: JB trouxe à tona um debate que precisa continuar
JB No Radar
O JB No Radar vai se aprofundar nas principais discussões que movimentam os bastidores da política no Litoral, no Paraná e em todo o Brasil. Análises sobre o xadrez político, disputas regionais e os jogos de poder que moldam os rumos do país.
Nem sempre os temas mais importantes são os mais comentados. Muitas vezes, assuntos que mexem diretamente com a vida das pessoas passam batido, sem gerar o debate necessário. Foi o que aconteceu com o novo edital de credenciamento médico publicado pela FUNEAS para o Hospital Regional do Litoral (HRL), em Paranaguá. Até a reportagem do JB Litoral ser publicada, o assunto estava sendo tratado como algo técnico e burocrático, restrito aos bastidores. Mas os impactos vão muito além disso.

A reportagem mostrou, com exclusividade, os principais pontos de preocupação dos profissionais de saúde que atuam dentro do hospital. Médicos denunciaram que o novo modelo pode comprometer a assistência à população, desmontar equipes estruturadas, afastar especialistas e piorar problemas que já existem na rotina da unidade. Entre as mudanças previstas, está o fim dos plantões presenciais noturnos para algumas especialidades, substituídos por escalas de sobreaviso, um modelo que, segundo os médicos, não garante resposta em tempo hábil nos casos mais graves.
Os relatos apontam para riscos concretos. Um médico explicou que, se um especialista estiver em Curitiba, por exemplo, pode levar mais de uma hora para chegar até o hospital em caso de emergência. Outro destacou que, sem equipes fixas e coesas, a continuidade do cuidado ao paciente fica comprometida. A lógica hospitalar, especialmente em unidades de urgência, depende de integração, confiança e agilidade. E isso não se constrói com profissionais que entram e saem da escala sem sequer se conhecerem, muitas vezes sem qualquer histórico prévio dos casos em andamento.
Não se trata, portanto, de uma questão meramente administrativa. O que está em jogo é a qualidade do atendimento prestado pelo maior hospital da região. E isso atinge diretamente milhares de pessoas que dependem do SUS em Paranaguá, Guaratuba, Matinhos, Pontal, Antonina, Morretes e Guaraqueçaba.
É importante lembrar que a sociedade civil organizada também tentou intervir. A UMAMP, que reúne associações de moradores de Paranaguá, protocolou um pedido formal de esclarecimento sobre o edital, que sequer foi respondido. A empresa responsável pelo modelo anterior também entrou com pedido de impugnação, que acabou sendo rejeitada sem mudanças reais. E o próprio parecer da FUNEAS confirma que as alterações mais sensíveis foram mantidas, com base no “poder discricionário da Administração Pública”.
Desde que a matéria foi publicada, o tema começou a repercutir. O Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) abriu apuração e convocou diálogo com autoridades e entidades. Profissionais de saúde iniciaram conversas sobre reação conjunta, inclusive com possibilidade de medidas judiciais e articulação com vereadores e deputados. Mas a verdade é que o debate público ainda está muito aquém da gravidade da situação.
O JB Litoral fez sua parte: ouviu médicos, acessou documentos, publicou com responsabilidade e deu nome aos problemas. Agora, o que se espera é que as lideranças políticas, os órgãos de fiscalização e, principalmente, a população permaneçam atentos e atuantes. Porque decisões como essa não podem ser tomadas no silêncio, sem discussão e sem transparência.
A saúde pública do Litoral merece respeito, investimento e diálogo. Se essa discussão esfriar, o prejuízo pode ser de todos.
