Entre a fuga e o discurso: o prefeito que ainda governa olhando pelo retrovisor
JB No Radar
O JB No Radar vai se aprofundar nas principais discussões que movimentam os bastidores da política no Litoral, no Paraná e em todo o Brasil. Análises sobre o xadrez político, disputas regionais e os jogos de poder que moldam os rumos do país.
A cena chamou mais atenção do que qualquer discurso. Diante de manifestantes da saúde que cobravam explicações sobre a extinção da Fundação de Assistência à Saúde de Paranaguá (FASP), o prefeito Adriano Ramos (Republicanos) entrou no carro e deixou o local. Horas depois, já distante do protesto e protegido pela câmera do celular, voltou ao Aeroparque e publicou um vídeo respondendo aos críticos.

O problema não está em gravar um vídeo. Políticos fazem isso todos os dias. O problema é que a gravação escancara uma prática que começa a se tornar rotina em Paranaguá: diante de questionamentos, a resposta quase sempre termina no mesmo endereço, a gestão passada.
Já se passaram cerca de 18 meses desde a posse de Adriano Ramos. Um ano e meio é tempo suficiente para apresentar resultados, corrigir rumos, assumir responsabilidades e sustentar decisões próprias. Mas, no vídeo divulgado após o protesto, a impressão é que a cidade continua vivendo em campanha eleitoral.
Os manifestantes que estavam no Aeroparque não pediam explicações sobre obras realizadas há quatro, cinco ou oito anos. Eles queriam respostas sobre uma decisão tomada agora: a extinção da FASP, aprovada pela Câmara na semana passada.
A pergunta central continua sem resposta objetiva: por que extinguir a fundação em vez de reformá-la? Por que não houve diálogo amplo com os trabalhadores? Por que o Conselho Municipal de Saúde afirma não ter sido ouvido? Por que o Ministério Público questiona judicialmente o processo?
São perguntas sobre o presente. Mas o vídeo percorre outro caminho.
Adriano dedica boa parte da gravação a atacar o ex-prefeito Marcelo Roque (PSD), citar investigações, contratos antigos, obras passadas, adversários políticos e até páginas de redes sociais. Tudo isso pode fazer parte do debate político. O que não substitui é a necessidade de explicar uma decisão administrativa que afeta diretamente cerca de 190 trabalhadores e toda a estrutura da saúde municipal.
O episódio também revela uma contradição difícil de ignorar. No vídeo, o prefeito afirma que respeita a manifestação. Porém, quando teve a oportunidade de ouvir os manifestantes pessoalmente, decidiu ir embora. Depois voltou ao debate sozinho, sem contraditório, por meio das redes sociais.
Ouvir é mais difícil do que gravar. Conversar é mais difícil do que discursar. Responder perguntas ao vivo é mais difícil do que fazer acusações para uma câmera. E é justamente por isso que a população espera que seus governantes façam isso.
Nenhum prefeito é obrigado a concordar com manifestantes. Nenhum prefeito é obrigado a recuar de decisões que considera corretas. Mas quem ocupa o cargo mais importante do município tem o dever de enfrentar o debate público quando ele aparece.
