Mobilização popular enterra PEC da blindagem; senadores se mostraram sensíveis ao mundo real


JB No Radar

O JB No Radar vai se aprofundar nas principais discussões que movimentam os bastidores da política no Litoral, no Paraná e em todo o Brasil. Análises sobre o xadrez político, disputas regionais e os jogos de poder que moldam os rumos do país.


Por Brayan Valêncio Publicado 25/09/2025 às 17h43

A chamada PEC da Blindagem não resistiu à primeira barreira no Senado. A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) rejeitou por unanimidade a proposta que obrigava a autorização das Casas Legislativas para que deputados e senadores fossem processados criminalmente. Foram 27 votos contra e nenhum a favor, um resultado raro em Brasília, onde quase sempre sobra espaço para negociações de bastidores. O relator Alessandro Vieira (MDB-SE) foi direto ao ponto: a PEC tinha “vício insanável” e não servia para proteger o Congresso, mas para dificultar investigações contra políticos.

Senadores
Sergio Moro e Oriovisto Guimarães fazem parte da CCJ e votaram contra a PEC da Blindagem, já Flavio Arns afirmou ser contra o texto mesmo sem poder de voto. (Fotos: Divulgação)

Essa decisão não pode ser lida de forma isolada. No último domingo, milhares de pessoas ocuparam as ruas em várias capitais do país para protestar contra a PEC. Foi um recado forte, com faixas, cartazes e discursos apontando que o Legislativo não poderia se blindar diante das cobranças por mais ética e transparência. A pressão das ruas foi acompanhada de uma verdadeira enxurrada nas redes sociais. O tema dominou os trending topics, deputados que votaram a favor na Câmara foram marcados e cobrados diretamente, e a hashtag contra a PEC viralizou em diferentes plataformas.

No Paraná, o episódio deixou marcas profundas. A maioria da bancada paranaense na Câmara dos Deputados apoiou a proposta, votando a favor de um texto que, agora, foi enterrado sem chance de recuperação. Essa escolha colocou os parlamentares em rota de colisão com a opinião pública. Não se trata de um debate técnico ou de uma medida impopular qualquer: é uma proposta que foi lida por amplos setores da sociedade como uma tentativa de legalizar a impunidade de políticos. O voto favorável, portanto, se transformou em um fardo pesado para carregar.

Senadores paranaenses foram exemplos

Enquanto isso, dois senadores paranaenses seguiram na direção contrária. Sérgio Moro (União) e Oriovisto Guimarães (PSDB) rejeitaram a PEC como foi construída desde o início e reafirmaram essa posição na CCJ do Senado. Ambos se apresentam, agora, como vozes que resistiram ao corporativismo e que se alinharam ao que pedia a população. Essa postura reforça a imagem de independência em um momento em que a pressão popular mostrou ter impacto direto no resultado político. Flávio Arns (PSB) não é integrante da comissão que analisa a constitucionalidade, mas desde o primeiro momento também tem sido uma voz firme contra o texto.

A diferença entre Câmara e Senado também ficou escancarada. Se na Câmara houve espaço para a aprovação, fruto de articulações e da força de líderes do Centrão interessados em aprovar a blindagem, no Senado não houve brecha para qualquer tipo de negociação. As emendas apresentadas foram rejeitadas, e a CCJ foi unânime em dizer que não havia margem para ajustes. O contraste revela, de um lado, a disposição de deputados em atender a interesses corporativos e, de outro, a necessidade do Senado de responder às manifestações da sociedade.

O peso das ruas e das redes não deve ser subestimado. Os protestos de domingo foram expressivos e tiveram ampla cobertura daa mídias sociais, criando um ambiente de pressão direta sobre os senadores. Ao mesmo tempo, a imagem negativa dos deputados que apoiaram a PEC se cristalizou na internet. Prints de votações circularam em grupos de WhatsApp, os nomes ficaram registrados em matérias e os parlamentares passaram a ser lembrados como defensores de privilégios. Esse tipo de desgaste, em tempos de memória digital longa e de campanhas eleitorais cada vez mais marcadas por redes sociais, é combustível para adversários em 2026.

Deputados mostraram desconexão com demandas das ruas

No Paraná, a fatura pode ser ainda mais pesada. A bancada estadual na Câmara que optou pelo voto favorável terá que lidar com uma cobrança que não se apaga rápido. Cada discurso de campanha será confrontado com a escolha feita neste episódio. A blindagem, rejeitada pelo Senado e pela sociedade, se tornou símbolo de tudo aquilo que o eleitor não quer ver: mais privilégios, menos transparência e políticos tentando legislar em causa própria.

O resultado político é claro. Os deputados paranaenses que votaram a favor se expuseram demais e agora terão que arcar com as consequências. O Senado rejeitou, mas quem cobra de verdade é o eleitor. E quando a cobrança vem das ruas e das redes ao mesmo tempo, não há blindagem que resista.

Já Moro e Oriovisto saem fortalecidos. Com a narrativa de que resistiram à PEC e estiveram ao lado da população, os dois senadores se reposicionam de forma estratégica para os próximos embates eleitorais. Em contrapartida, os deputados que apoiaram a proposta viram seu capital político se desgastar faltando um ano para novas eleições.

No fim das contas, a derrubada da PEC da Blindagem foi mais do que uma vitória institucional. Foi uma demonstração de que a sociedade ainda tem força para pressionar e mudar rumos em Brasília. Os deputados que ignoraram esse sinal agora estão na mira do eleitor. E, em 2026, essa conta certamente será cobrada nas urnas.


Sobre

Jornalista, pós-graduado em Mídias Digitais, com passagem por veículos nacionais como CNN Brasil, Jovem Pan News e Record. Atuou em rádio, TV e internet, além de ter sido colunista de política no portal RIC.com.br.