Verdadeiros afetados por taxação de Trump é o empresário e o trabalhador brasileiro


JB No Radar

O JB No Radar vai se aprofundar nas principais discussões que movimentam os bastidores da política no Litoral, no Paraná e em todo o Brasil. Análises sobre o xadrez político, disputas regionais e os jogos de poder que moldam os rumos do país.


Por Brayan Valêncio Publicado 09/07/2025 às 19h41

O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de aplicar uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras a partir de 1º de agosto não é apenas uma decisão econômica. Trata-se de uma ofensiva política, direta e explícita, contra o Brasil. A carta enviada a Lula nesta quarta-feira (9) é uma peça diplomática fora dos padrões tradicionais: ela mistura indignação pessoal com retaliação comercial, ataca abertamente o Supremo Tribunal Federal (STF) e acusa o país de censura e autoritarismo, ao mesmo tempo em que impõe a tarifa mais alta já registrada contra produtos brasileiros.

Porto de Paranaguá será fortemente afetado pelas tarifas anunciadas por Donald Trump (Foto: Claudio Neves/ Portos do Paraná)

O Porto de Paranaguá, maior terminal graneleiro da América Latina e principal escoador de soja, farelo, carnes congeladas, açúcar, óleo vegetal e celulose, será um dos mais afetados por essa medida. Como principal canal de exportação do Paraná para os Estados Unidos, o porto corre o risco de sofrer uma queda significativa no volume de cargas destinadas ao mercado americano, seu segundo maior parceiro comercial, atrás apenas da China. Produtos que já enfrentaram retração nas vendas com a tarifa anterior de 10%, como carne de frango e farelo de soja, agora ficam ainda menos competitivos. Isso ameaça diretamente a movimentação portuária, impacta empresas exportadoras da região e coloca em risco empregos em toda a cadeia produtiva, desde a agricultura até a logística. Para um estado com forte vocação exportadora, o impacto negativo pode ser imediato e profundo.

A motivação da medida está claramente exposta: Trump foi provocado a punir o iminente julgamento e a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de Golpe de Estado. O documento chama o processo de “vergonha internacional” e “caça às bruxas”, e sustenta que o tratamento dado a Bolsonaro viola princípios de liberdade de expressão e eleições livres. Não há qualquer tentativa de disfarçar a motivação ideológica. Trump usa o poder econômico americano para interferir de forma direta no cenário político brasileiro, ao custo de prejudicar milhares de produtores, empresários e trabalhadores.

O problema central é que quem vai arcar com as consequências dessa disputa não são os alvos nominais da carta. O Supremo Tribunal Federal não exporta celulose. Lula não comercializa aço. Bolsonaro não embarca cargas de café em contêineres. Quem vai sentir no bolso essa tarifa de 50% é o produtor rural que vende laranja para o mercado norte-americano, o trabalhador da indústria metalúrgica que depende da exportação de aço, o funcionário da Embraer, o operador portuário, o pequeno empresário exportador que lutou anos para conquistar espaço nos Estados Unidos. São esses brasileiros que pagarão a conta.

A retaliação anunciada se soma a outras tarifas já em vigor desde abril, quando Trump determinou uma sobretaxa de 10% para uma série de produtos brasileiros como parte de sua nova estratégia comercial. O efeito dessas primeiras medidas já foi sentido: segundo a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), cinco dos dez principais produtos exportados para os Estados Unidos tiveram queda nas vendas desde que as tarifas começaram a valer. A nova taxação de 50%, agora aplicada de forma indiscriminada a todas as exportações brasileiras, tende a ampliar ainda mais esse impacto. Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil. Desde 2009, o país registra déficit na balança comercial com os americanos, ou seja, já compra mais do que vende. Ainda assim, as exportações para os EUA têm sido um pilar importante para setores estratégicos da economia brasileira, como o petróleo bruto, a celulose, os produtos químicos, as aeronaves e os produtos agroindustriais. Se esses mercados encolherem de forma abrupta, os reflexos serão imediatos na atividade econômica, no emprego e na arrecadação.

Presidente Trump mente ao dizer que Estados Unidos tem déficit comercial com o Brasil (Foto: Carlo Aleggri/ Reuters)

Apesar da gravidade do cenário, há quem, dentro do próprio Brasil, aplauda a medida de Trump. São vozes que colocam a lealdade ideológica acima da defesa dos interesses nacionais. E é preciso dizer com clareza: quem é brasileiro e incentiva esse tipo de postura está simplesmente errado. Não se trata de defender governo L ou B. Trata-se de reconhecer que uma medida desse tipo, tomada por um governo estrangeiro com base em discordâncias políticas internas ao Brasil, prejudica toda a cadeia produtiva nacional. Incentivar sanções econômicas contra o próprio país, com o argumento de proteger um aliado político, é um caminho perigoso que mina a soberania, enfraquece a economia e empobrece a população.

Ao mesmo tempo, a carta de Trump oferece ao governo Lula uma oportunidade política concreta. O presidente tem agora a faca e o queijo na mão para construir um discurso de enfrentamento externo, unificando a sociedade em torno da defesa do interesse nacional. A figura de um inimigo externo, especialmente quando encarnada em um líder estrangeiro com atitudes agressivas, costuma funcionar como catalisador de apoio interno. Com habilidade, Lula pode transformar essa crise em narrativa de soberania, retomando um discurso que já fez parte de sua trajetória: o de que o Brasil não se curva a potências estrangeiras.

Esse movimento exigirá mais do que retórica. O governo precisará atuar em três frentes: buscar alternativas de mercado para os produtos prejudicados, acionar os canais diplomáticos e comerciais internacionais, e dar suporte aos setores que serão mais atingidos pela nova tarifação. O empresariado também terá papel decisivo, seja pressionando por soluções, seja reorganizando estratégias de exportação.

Mas a verdade mais crua e urgente é esta: enquanto líderes trocam cartas e recados diplomáticos, o prejuízo bate primeiro na porta de quem trabalha, de quem produz, de quem depende da exportação para viver. E não há ideologia que justifique torcer contra o próprio país.


Sobre

Jornalista, pós-graduado em Mídias Digitais, com passagem por veículos nacionais como CNN Brasil, Jovem Pan News e Record. Atuou em rádio, TV e internet, além de ter sido colunista de política no portal RIC.com.br.