Editorial: Quando as estatísticas ainda não podem ser comemoradas


Por Redação Publicado 30/03/2026 às 15h17

Estamos chegando ao fim do mês em que as mulheres estão em evidência, período em que ainda precisamos combater o que não deveria mais existir: a violência contra elas.

Toda mulher já foi vítima ou conhece alguém que passou por uma situação de assédio ou até de estupro, isso sem falar nos casos de feminicídio, que continuam assombrando o Litoral. Mas esses atos de violência de “menor gravidade”, se comparados à morte, também devem ser fortemente combatidos pela sociedade.

Os números são alarmantes. No ano passado, 55 mulheres e 143 crianças e adolescentes — com menos de 18 anos — foram vítimas de estupro no Litoral. Em 2024, foram 60 mulheres e 192 menores de idade, considerando os sete municípios da região.

Apesar da discreta redução, não há o que comemorar, pois a realidade é muito mais dura do que os números oficiais mostram. Muitas meninas e mulheres acabam não registrando os casos na polícia ou em serviços de saúde por medo, vergonha ou até desconhecimento. Essa violência, que deixa traumas profundos, é, em grande parte, cometida por pessoas próximas às vítimas — muitas vezes parentes ou conhecidos que detêm sua confiança.

Estimativas do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) apontam que apenas cerca de 8,5% a 10% dos casos de estupro no Brasil são notificados às autoridades policiais, o que implica uma taxa de subnotificação superior a 90%. Quando se consideram apenas os registros do sistema de saúde — como hospitais e unidades de saúde —, esse índice é ainda menor, com estimativas de que apenas 4% dos casos chegam ao conhecimento oficial. Com isso, especialistas estimam que, sem a subnotificação, o Brasil poderia registrar mais de 800 mil casos por ano, número muito superior aos cerca de 84 mil registros oficiais contabilizados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023.

Além do medo e da vergonha, muitas vítimas podem não denunciar devido à descrença na justiça, dependência financeira do agressor ou por não terem consciência de que sofreram violência sexual, especialmente no caso de crianças e adolescentes, a exemplo da garota de 17 anos, vítima de um estupro coletivo arquitetado pelo adolescente, também de 17 anos, que ela conheceu na escola e com quem estava vivendo um romance.

O caso aconteceu no fim de janeiro, no Rio de Janeiro, mas ganhou repercussão nacional no último dia 8, Dia Internacional da Mulher, após ser exibido no programa Fantástico, da Rede Globo. A jovem foi ao encontro do adolescente e, no apartamento dele, estavam outros quatro rapazes: dois de 18 e dois de 19 anos.

Mesmo se negando a manter relações sexuais, ela foi forçada. Ao pedir que parassem, foi agredida e derrubada da cama com chutes pelos cinco. Mesmo diante da violência e com marcas pelo corpo, a menina conseguiu pedir ajuda ao irmão por mensagem: “Eu acho que fui estuprada”.

É de cortar o coração. É revoltante — e causa indignação — ver que uma postagem tão séria e necessária, de conscientização sobre o tema, feita pelo Ministério Público do Paraná, receba comentários como o de um homem que questiona: “Homens não sofrem violência sexual? Por que tratar a questão sob a perspectiva de gênero? Como homens vão denunciar os abusos se parece valer só para mulheres?”.

Sim, precisamos tratar a questão sob a perspectiva de gênero, porque a violência contra a mulher é um problema estrutural. Dados do DataSenado apontam que 3,7 milhões de brasileiras foram vítimas de algum tipo de violência em 2025, o que representa mais de 10 mil mulheres por dia.

Portanto, já passou da hora de pensamentos como os desse cidadão também serem combatidos, pois é por meio da educação que se transformam atitudes.

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