Vereadora transforma dor de experiências pessoais em lei de prevenção ao suicídio


Por Flávia Barros Publicado 30/09/2025 às 13h15 Atualizado 28/10/2025 às 18h22

A dor de perder três pessoas da família por suicídio motivou a vereadora Silvia Stopasol (Solidariedade), juntamente com as vereadoras Samira Choinski Domiciano (PSD – Samira da Saúde) e Samaritana da Luz (PSD), mais conhecida como Taninha da Luz, a apresentarem o Projeto de Lei nº 2591/2025, na Câmara Municipal de Morretes.

Câmara de Morretes
Projeto foi apresentado durante sessão na última quarta (25).

O projeto, que foi aprovado por unanimidade, na última quarta-feira (25), institui a campanha de valorização da vida denominada “Setembro Amarelo” e o Dia Municipal de Prevenção ao Suicídio no calendário oficial do Município, o qual passará a ser celebrado no dia 10 do mês nacionalmente dedicado à valorização da vida. A proposta deve virar lei em breve, após ser sancionada pelo prefeito, Junior Brindarolli (PSD).

Para detalhar o projeto, o JB Litoral conversou, nesta segunda-feira (29), com a vereadora Silvia Stopasol. Ela ressaltou a necessidade de cada cidadão estar atento e prestar apoio a quem precisa e a importância de políticas públicas que previnam suicídios.

Vereadora Silvia Stpopasol
Nossa intenção é que as pessoas tenham a possibilidade de cura“. Foto: Diogo Monteiro/JB Litoral

Nossa família já possui três episódios. Então, é uma coisa que marcou muito a minha vida e a depressão se tornou uma bandeira para mim. Quando eu era muito jovem, eu perdi um primo, aqui mesmo na região de Morretes, para o suicídio, com 20 e poucos anos. Posteriormente, meu tio foi vencido pela depressão e, em 2019, foi a minha irmã que não suportou a doença e veio a cometer um ato contra a sua própria vida”, relatou Silvia.

“O que faltou para a minha irmã?”

A parlamentar chamou a atenção para uma das características da doença que podem dificultar a percepção dos sinais, até por pessoas mais próximas.

Minha irmã tinha uma vida estabilizada, era casada, tinha dois filhos, uma pessoa super alegre, feliz, sempre de bem com a vida. Não levantou, em nenhum momento, a possibilidade de que ela estivesse passando por qualquer tipo de problema nesse sentido de depressão. Mas ela chegou ao ato de cometer o suicídio. Então, isso faz com que a gente pare e pense: o que faltou para a minha irmã? Faltou o acolhimento para ela. Faltou um abraço, um carinho? Mas, essas explicações, hoje a gente não consegue, o que a gente consegue é lutar, através da nossa lei, para que outras pessoas não cheguem a esse ato”, disse Stopasol.

Para Silvia, o melhor caminho e acessível a todos, é proporcionar esse acolhimento por meio dos serviços municipais.

Nossa intenção é que as pessoas tenham a possibilidade de cura, a possibilidade de um tratamento, de um acolhimento através das secretarias de Saúde, de Assistência Social do nosso município e até através da nossa Câmara de Vereadores, que a gente possa dar esse acolhimento a essas pessoas”, completou.

Ação integrada e com prestação de contas

De acordo com o texto do projeto, fica estabelecido que, durante o mês de setembro, o Poder Executivo poderá desenvolver, direta ou indiretamente, as seguintes ações:

  1. Palestras, rodas de conversa e debates em escolas e espaços públicos;
  2. Iluminação de prédios e monumentos públicos com a cor amarela, como símbolo da campanha;
  3. Campanhas de mídia em rádios, redes sociais, jornais e demais meios de comunicação;
  4. Capacitação de profissionais da Saúde, Educação e Assistência Social;
  5. Parcerias com entidades da sociedade civil, ONGs, instituições religiosas e universidades;
  6. Eventos esportivos, culturais e educativos que reforcem a importância da saúde mental e da valorização da vida.

Ainda segundo o PL aprovado pelos vereadores, a Prefeitura deverá integrar as ações da campanha com a rede pública de Saúde priorizando a divulgação dos serviços de atenção psicossocial e de apoio à saúde mental para crianças, jovens, adultos e idosos; a capacitação de agentes comunitários de saúde para orientação e encaminhamento é implantar estratégias para conscientização da prevenção ao suicídio, depressão, transtorno de ansiedade e síndrome do pânico.

Caberá ao Poder Executivo apresentar à Câmara Municipal, até o final do mês de agosto de cada ano, um relatório anual de atividades, contendo a descrição das ações realizadas; o número de participantes nos eventos e capacitações; a avaliação do impacto das atividades, além das recomendações para aprimoramento das ações futuras, juntamente com o cronograma das atividades a serem realizadas em prol da campanha “Setembro Amarelo”, no mês subsequente.

Uma década de campanha

A campanha nacional Setembro Amarelo é uma iniciativa dedicada à conscientização sobre a saúde mental e à prevenção do suicídio. A ação foi criada em 2015, em uma ação conjunta do Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), com o objetivo de alertar a sociedade para a valorização da vida e incentivar o diálogo aberto sobre o tema.

De acordo com a última pesquisa realizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2019, são registrados mais de 700 mil suicídios em todo o mundo, sem contar com os episódios subnotificados, pois, com isso, estima-se mais de um milhão de casos. No Brasil, os registros se aproximam de 14 mil por ano, resultando em uma média de 38 pessoas que cometem suicídio por dia. 

Embora os números estejam diminuindo em todo o mundo, os países das Américas vão na contramão dessa tendência, com índices que não param de aumentar, segundo a OMS. A campanha de 2025 alertou que, praticamente, 100% de todos os casos de suicídio estão relacionados às doenças mentais, principalmente não diagnosticadas ou tratadas incorretamente. Dessa forma, a maioria dos casos poderia ter sido evitada se esses pacientes tivessem acesso ao tratamento psiquiátrico e informações de qualidade.

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