Assédios e estupros contra mulheres e adolescentes no Litoral, uma realidade que precisa ser ainda mais combatida; “Fiquei alguns meses sem conseguir sair sozinha”


Por Redação Publicado 30/03/2026 às 15h44

Após não aparecer no trabalho nem responder às mensagens no celular, a filha de Jane Alves Cordeiro, de 49 anos, decidiu ir até a casa da mãe, na Avenida Belmiro Sebastião Marques, no Jardim Ouro Fino, em Paranaguá, onde encontrou a pior cena possível: a mãe morta no sofá, com um ferimento na testa, em meio a muito sangue.

caso jane
Jane e Marcos mantinham um relacionamento há oito meses, até que ele a matou no dia 19 de março. Foto: Arquivo pessoal

O caso aconteceu no último dia 19, e o namorado de Jane, Marcos da Silva, de 39 anos, foi preso quatro dias depois, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC), onde confessou o feminicídio. A relação era marcada por episódios de violência doméstica, que chegaram a ser denunciados pela vítima.

São casos extremos de violência, que resultam no pior desfecho possível: a morte de mulheres. Mas há outros tipos de violência que deixam marcas e também precisam ser combatidos, como os crimes de assédio e estupro.

O JB Litoral foi às ruas de Paranaguá e conversou com algumas mulheres. Não foi difícil encontrar vítimas de assédio.

Para uma auxiliar administrativa, de 26 anos, o caso aconteceu dentro do transporte coletivo da cidade, quando ela seguia para o trabalho, às 7h30 da manhã. “Eu estava dentro do ônibus e um senhor entrou, de bengala, mas aparentando estar bêbado. No percurso, ele começou a incomodar. Eu abri espaço para que ele pudesse se apoiar na área para cadeirantes, mas ele passou a mão na minha bunda, nas minhas costas e na cintura. E não foi só em mim, foi com mais uma moça também”, contou, preferindo não se identificar.

Na ocasião, as vítimas denunciaram a violência logo em seguida e o criminoso foi preso em flagrante. “O motorista parou, fechou a porta do ônibus e não deixou o homem descer. A própria população chamou a polícia, e ele foi preso imediatamente. Mas é triste, porque você não espera, né? Você está vindo trabalhar, na sua rotina, e não espera ser tocada, ser invadida — porque é uma invasão, não foi permitido. Triste, bem triste”, detalhou a jovem.

Ela também contou que o homem que a assediou não ficou muito tempo preso e que o fato fez com que surgisse o receio de andar sozinha.

“Infelizmente, depois de dois dias ele já estava na rua, e eu dei de cara com ele. Fiquei alguns meses sem conseguir pegar o ônibus novamente por causa do ocorrido; eu não conseguia sair sozinha. Fiquei bem aflita, com receio de todo mundo que estivesse à minha volta. Agora, depois que voltei a pegar o ônibus, tento sentar ou ficar em um canto onde ninguém possa encostar em mim, para evitar que a situação se repita”, completou.

Nojo e trauma de anos

Outras duas mulheres também relataram ao JB Litoral casos distintos de assédio que sofreram. Para a vendedora de 43 anos, a violência ocorreu por meio de palavras. “Já passei por muitas situações em que, ao passar na rua, algum homem começava a mexer comigo, falando coisas que nenhuma mulher gostaria de ouvir e achando que estavam na ‘vantagem’. Foram vários assédios nesse sentido, e minha reação foi de nojo”, disse.

Para ela, a sensação também é de medo e preocupação, pois tem uma filha adolescente. “Dá vergonha, e a gente fica como se estivesse desprotegida no ambiente público. Na rua, no ônibus, no carro de aplicativo, no supermercado, até quando estamos vendendo algum produto e somos assediadas — você está vendendo o produto, né? Não está vendendo você. Tenho medo de que seja sempre assim, porque minha filha tem 13 anos. Uma hora ela também vai passar por isso, infelizmente. Aí eu já falo para ela, ensino, para que saiba como agir”, desabafou.

Para uma outra vendedora, uma situação vivida há mais de 20 anos ainda causa arrepio. Aos 45 anos, a moradora de Paranaguá relata uma experiência vivida quando ainda morava em Quatro Barras, município da RMC.

“Na época, eu tinha 19 anos e me senti muito ameaçada. Aconteceu a caminho da escola, no começo da noite. Estava escuro e não havia ninguém na rua, quando percebi que um homem começou a andar rápido atrás de mim. Olhei para os lados: só estávamos nós dois na rua, e ele se aproximava. Comecei a correr; ele começou a correr também. Havia um terreno baldio, e, quando vi que ele ia me alcançar, gritei. Então, pessoas saíram de suas casas, e um senhor gritou para ele: ‘Deixa ela, deixa ela’. Ficou um trauma na minha cabeça. Na hora em que você mencionou assédio, eu me arrepiei. Faz tanto tempo, e eu ainda tenho medo, pois vemos que isso continua acontecendo com as mulheres”, relatou ao JB Litoral.

Violência sexual

Neste mês de março, um caso de estupro veio à tona em Paranaguá, depois que a vítima procurou a Polícia Militar (PM) ao descobrir uma gravidez indesejada, resultado da violência sexual. De acordo com a polícia, a jovem de 23 anos denunciou ter sido estuprada em janeiro, durante uma festa no Centro Histórico da cidade.

MULHER DELEGACIA
Em Paranaguá, aumentou o número de vítimas de estupro que procurou a polícia: 21 mulheres registraram B.O em 2025, enquanto 14 formalizaram queixa em 2024. Foto: PCPR

Segundo relato à PM, o suspeito abordou a jovem e a acompanhou até um ponto de ônibus, onde passou a agir de forma agressiva, ameaçando sua vida caso não cedesse. Após o abuso, ele fugiu. A vítima explicou que não denunciou antes por vergonha, mas buscou atendimento no Hospital Regional do Litoral e registrou o caso na polícia. O boletim de ocorrência foi formalizado, e ela recebeu orientações sobre os próximos passos legais.

Leia também: Editorial: Quando as estatísticas ainda não podem ser comemoradas

O caso segue sob investigação da Polícia Civil e ocorre um ano após outro estupro em Paranaguá ter alcançado repercussão nacional. Na ocasião, uma jovem aceitou a ajuda de um rapaz com quem havia ficado em um show para ir ao banheiro, em um posto desativado, e a violência foi registrada por câmeras de segurança.

Números alarmantes: maioria das vítimas tem menos de 18 anos

Procurada pelo JB Litoral, a Secretaria da Segurança Pública do Estado do Paraná (Sesp) informou que o número total de vítimas mulheres (adultas) de estupros registrados nos municípios do Litoral “segue tendência de queda, assim como em todo estado do Paraná. De 2024 a 2025 a redução de vítimas registradas no Litoral foi de mais de 8% (de 60 para 55)”, diz a nota.

A pedido da reportagem, a pasta detalhou os números relativos aos crimes de estupro registrados no Litoral, nos últimos quatro anos, por município:

  • Paranaguá: 22 em 2022; 21 em 2023; 14 em 2024 e 21 em 2025
  • Matinhos: 13 em 2022; 12 em 2023; 20 em 2024 e 12 em 2025
  • Guaratuba: 6 em 2022; 9 em 2023; 6 em 2024 e 6 em 2025
  • Pontal do Paraná: 10 em 2022; 4 em 2023; 7 em 2024 e 8 em 2025
  • Morretes: 4 em 2022; 4 em 2023; 5 em 2024 e 5 em 2025
  • Antonina: 3 em 2022; 2 em 2023; 5 em 2024 e 3 em 2025
  • Guaraqueçaba: 1 em 2022; 3 em 2023; 3 em 2024 e 0 (nenhum) em 2025

“Em relação aos estupros de menores, foram registradas 192 vítimas em 2024 e 143 em 2025 no Litoral do Paraná, o que representa uma queda de mais de 25%”, afirmou a Sesp, detalhando os números por cidade:

  • Paranaguá: 95 em 2022; 87 em 2023; 84 em 2024 e 46 em 2025
  • Matinhos: 41 em 2022; 47 em 2023; 32 em 2024 e 25 em 2025
  • Guaratuba: 33 em 2022; 33 em 2023; 18 em 2024 e 23 em 2025
  • Pontal do Paraná: 24 em 2022; 20 em 2023; 19 em 2024 e 23 em 2025
  • Morretes: 12 em 2022; 12 em 2023; 18 em 2024 e 15 em 2025
  • Antonina: 13 em 2022; 10 em 2023; 13 em 2024 e 8 em 2025
  • Guaraqueçaba: 4 em 2022; 12 em 2023; 8 em 2024 e 3 em 2025

Mas os números podem corresponder a uma pequena parcela dos crimes que ocorrem. Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) apontam que apenas cerca de 8,5% a 10% dos casos de estupro no Brasil são notificados às autoridades policiais. Isso implica uma taxa de subnotificação superior a 90%.

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