Ameaça não é resposta e criticar uma cidade não depende de CEP
O caso envolvendo o influenciador Gabriel Bertolucci, que registrou boletim de ocorrência após receber ameaças de morte, mostra um problema que vai muito além de Paranaguá: a tentativa de silenciar críticas por meio da intimidação. Não é um episódio isolado. É um sintoma.

As mensagens divulgadas não deixam margem para interpretação. Falam em agressão, em execução, em “bala à espera”. Isso não é debate político, não é discordância, não é defesa da cidade. É ameaça. E ameaça, em qualquer cenário, precisa ser tratada como caso de polícia, não como reação aceitável a críticas.
O ponto mais preocupante é outro: a naturalização desse tipo de resposta. Parte das reações ao caso não foi de repúdio à violência, mas de questionamento à legitimidade de quem critica. O argumento é simples e equivocado: Bertolucci não é de Paranaguá, portanto não poderia falar sobre a cidade.
Não existe base legal, constitucional ou sequer lógica para essa ideia. Liberdade de expressão não tem delimitação geográfica. Um cidadão pode criticar a gestão de qualquer município, estado ou país. Pode questionar políticas públicas, apontar problemas e cobrar soluções sendo morador ou não.
Aliás, em muitos casos, o olhar de fora ajuda a romper o que moradores já naturalizaram. Problemas estruturais, quando se tornam rotina, deixam de gerar indignação. É justamente nesse momento que a crítica externa ganha relevância.
Isso não significa que toda crítica esteja correta ou que não possa ser contestada. Pode e deve. Mas com argumento, com dado, com contraponto. Nunca com ameaça.
Outro ponto que precisa ser observado é o ambiente institucional. Quando uma ameaça envolve alguém que ocupa cargo comissionado, o caso ganha outra dimensão. Não se trata apenas de um conflito pessoal. Envolve, ainda que indiretamente, a relação entre poder público e liberdade de crítica.
Cabe às autoridades investigar, esclarecer os fatos e, se for o caso, responsabilizar. Mas cabe também à sociedade estabelecer um limite claro: violência não é resposta.
Paranaguá, como qualquer cidade, tem problemas e tem qualidades. Pode e deve ser defendida. Mas não à base do medo. Quem realmente se preocupa com a cidade responde com transparência, com ação e com resultado.
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Porque, no fim, a discussão não é sobre quem pode falar. É sobre como se responde ao que é dito.
Outro lado
O JB Litoral reforça que a Prefeitura de Paranaguá segue sem se manifestar sobre as acusações do influenciadores e também as ameaças realizadas por um servidor municipal.
A defesa de Anderson Santos Fermino divulgou nota. Em respeito ao contraditório, o JB Litoral coloca o comunicado na íntegra abaixo:
“A defesa de Anderson Santos Fermino vem a público manifestar-se sobre a matéria divulgada envolvendo o influenciador Gabriel Bortulocci, a qual apresenta narrativa parcial dos fatos.
Esclarece-se que as manifestações atribuídas ao Sr. Anderson vêm sendo interpretadas de forma descontextualizada, especialmente no que se refere a expressões mencionadas em momento isolado, sem qualquer intenção de intimidação ou ameaça.
O episódio decorre de reação pontual diante de críticas direcionadas à cidade de Paranaguá, local pelo qual o Sr. Anderson nutre respeito, não havendo qualquer conduta que configure ilícito penal.
Registra-se que manifestações dessa natureza estão inseridas no âmbito da liberdade de expressão, devendo ser analisadas com cautela e dentro de seu contexto.
A defesa acompanha o caso e adotará todas as providências necessárias para a adequada apuração dos fatos e resguardo dos direitos de seu constituinte.
Por fim, o Sr. Anderson reafirma seu compromisso com a cidade de Paranaguá e com a convivência respeitosa, lamentando que um episódio pontual esteja sendo indevidamente ampliado e distorcido.”
