Em fim do mandato, prefeitura de Matinhos faz a limpa em comissionados e não paga horas extras para funcionários


Por Thais Skodowski Publicado 14/12/2024 às 17h35 Atualizado 15/12/2024 às 20h59

(Matéria atualizada às 20h57 de hoje.)

A administração municipal de Matinhos, liderada pelo prefeito José Carlos do Espírito Santo, o Zé da Ecler, (PSDB), tem enfrentado uma onda de críticas após adotar medidas drásticas para conter despesas, em meio ao fim do mandato. Sem conquistar a reeleição, o prefeito suspendeu inúmeros pagamentos, comprometendo serviços essenciais, como o funcionamento de unidades de pronto atendimento, transporte escolar e o pagamento de horas extras a servidores municipais.

Revitalização do balnearios de Monções e Florida  – Matinhos – Zé da ecler e vereadores – 19-01-2024  (13)
Prefeito Zé da Ecler (PSDB) deixa mandato descumprindo pagamentos de serviços essenciais para a população. Foto: Rafael Pinheiro/JB Litoral

“Acontece que dos servidores, ninguém recebeu hora extra. Na saúde, ninguém recebeu diária. Não está tendo escolar à tarde porque eles não estão pagando hora extra para o motorista. Não está indo ônibus para Curitiba levar o pessoal doente, porque eles não estão pagando diária. Está um caos”, desabafou uma servidora, que preferiu não se identificar.

Outra funcionária, que também não quis se identificar, relatou que não recebe valores referentes às horas extras desde setembro. “A gente pergunta, um fica jogando para o outro: o RH joga para o secretário e o secretário joga para o RH”, afirmou.

Em um vídeo publicado nas redes sociais no dia 29 de novembro, a motorista de ônibus escolar Paula Adriana da Silva confirmou a ausência do pagamento dos acréscimos salariais. “O pagamento caiu ontem e, para a surpresa de todos os servidores, eles não receberam as horas extras”, declarou.

Segundo Paula, a justificativa da prefeitura foi atribuída a um suposto erro bancário. “Esse povo acha que a gente está na pré-história?”, ironizou. Ela ainda denunciou que um colega, que já não havia recebido horas extras no mês anterior, foi coagido a continuar trabalhando sem garantia de pagamento. “Ele foi colocado contra a parede que era para ele fazer, caso contrário ia sobrar pra ele”, contou.

Motoristas de ônibus escolar denunciam que não estão recebendo por horas extras e, por isso, crianças estão ficando sem transporte.
Motoristas de ônibus escolar denunciam que não estão recebendo por horas extras e, por isso, crianças estão ficando sem transporte. Foto: JB Litoral

Exonerações em massa

Além da suspensão de pagamentos, a prefeitura exonerou pelo menos 43 cargos comissionados em novembro, incluindo chefes de divisão e departamento. Dois secretários também foram dispensados: o secretário municipal de Urbanismo e Planejamento Urbano, Maurício Piazzetta, no dia 1° de novembro, e a secretária municipal de Saúde, Ana Lúcia Pires, que foi exonerada após seu falecimento.

Outras exonerações incluíram Fernanda de Bona, diretora de assistência à saúde; Everton Cordeio, chefe da divisão de limpeza pública; e Andrey Souza, chefe da divisão de recursos humanos.

Colapso financeiro

Durante seu discurso de diplomação, na terça-feira (10), o prefeito eleito de Matinhos, Eduardo Dalmora (PL), classificou a situação do município como um verdadeiro caos e pediu o apoio dos vereadores eleitos. “Vamos ter que reconstruir Matinhos”, afirmou.

Dalmora expressou preocupação com a possibilidade dos servidores municipais ficarem sem pagamento no fim do ano. “Estou rezando para que os funcionários públicos consigam receber no fim do mês agora. Os 345 comissionados que tem hoje neste município, o que é um absurdo, uma grande parte provavelmente não vai receber”, explicou.

Ele também denunciou a falta de colaboração para o processo de transição entre gestões. “Não conseguimos fazer a transição, porque se escondem e se negam. Pelo que já levantamos, vamos pegar com R$ 20, R$ 25, 30 milhões negativos sem pagar”, comentou.

“Indústria da locação”

“Indústria da locação”

Dalmora também acusou a gestão atual de fazer uso excessivo de equipamentos alugados. No discurso, o prefeito eleito criticou o alto valor destinado por Zé da Ecler para a troca de lâmpadas no município.

Em 2022, a Prefeitura de Matinhos realizou o pregão 040/2022 para contratar uma empresa responsável pela reordenação do sistema de iluminação pública, incluindo a locação de luminárias LED e equipamentos de telegestão, pelo período de cinco anos. A vencedora foi a Mobit, que iniciou os trabalhos logo após o Carnaval do ano passado.

“As lâmpadas são alugadas, R$ 700 mil por mês. Onde que o município paga R$ 700 mil por mês de locação? É uma indústria da locação, um descaso”, criticou Dalmora.

À época, a contratação já gerava desconfiança entre os moradores. O secretário municipal de Administração, Joilson Vaz da Silva, compareceu à Câmara de Vereadores para justificar o projeto. Segundo a Prefeitura, o custo total do contrato, de R$ 39 milhões para 60 meses, seria compensado pela economia proporcionada pelas luminárias de LED.

Dalmora também fez duras críticas à gestão da saúde de Matinhos, que, na última semana, enfrentou a interrupção de atendimentos na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Praia Grande e no Hospital e Maternidade Nossa Senhora dos Navegantes. O prefeito eleito ainda mencionou a denúncia de falta de medicamentos, que foi negada pela atual gestão. “A farmácia básica não existe. A consulta no posto de saúde demora pelo menos 60 dias”, concluiu.

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