Obra tem, propaganda tem, mas água não: o colapso da Sanepar no Litoral


JB No Radar

O JB No Radar vai se aprofundar nas principais discussões que movimentam os bastidores da política no Litoral, no Paraná e em todo o Brasil. Análises sobre o xadrez político, disputas regionais e os jogos de poder que moldam os rumos do país.


Por Brayan Valêncio Publicado 07/01/2026 às 18h17

O Litoral do Paraná vive um paradoxo difícil de engolir e impossível de justificar. Nunca se falou tanto em infraestrutura: duplicações e melhorias nas rodovias, a prometida Ponte de Guaratuba finalmente saindo do papel, obras de engorda da faixa de areia, investimentos para tornar a região mais atraente ao turismo. Tudo muito bonito no discurso. Mas, na prática, falta o mais básico: água nas torneiras.

Água
Discursos são bonitos, mas o que faz a diferença é o dia a dia da população. E a entrega da Sanepar nesse verão é vergonhosa. Foto: Sanepar

No auge do verão, em plena temporada de festas, moradores e veranistas enfrentam dias seguidos de torneiras secas ou com pressão insuficiente até para uma descarga. A explicação oficial da Sanepar beira a petulância. A companhia admite que reduziu a pressão da rede nos horários de pico por causa do “alto consumo”. Traduzindo: quando as pessoas mais precisam de água, o sistema simplesmente não entrega.

É um argumento que inverte a lógica do serviço público. Naturalmente, as pessoas consomem mais água no verão. Elas estão no Litoral, sob calor intenso, com casas cheias, comércio funcionando a todo vapor e praias lotadas. Isso não é exceção, é regra. A temporada não surge de surpresa todo mês de dezembro. Ela acontece todo ano e há décadas.

Tratar o consumo como problema é uma forma conveniente de desviar o foco da real questão: a infraestrutura não acompanha a demanda. Se o sistema entra em colapso justamente quando é mais exigido, o erro não está no usuário, mas no planejamento. Reduzir pressão não é solução técnica, é confissão de incapacidade.

O mais grave é que esse cenário não é novidade. Reportagens se repetem ano após ano, com relatos de bairros inteiros sem água por horas ou dias, prejuízos para moradores, comerciantes e para a própria imagem turística do Paraná. Em Pontal e Matinhos tem gente sem água desde a véspera do Natal. A resposta é tão lenta que parece que as autoridades estão dando de ombros não só para os turistas, mas principalmente para os moradores da região.

Guaratuba é outro caso grave, foram dias sem água na torneira para a cidade que promete tudo e não tá entregando nada. Ainda assim, a resposta institucional segue a mesma: apelos por “uso consciente” e comunicados burocráticos, enquanto famílias não conseguem tomar banho, cozinhar ou sequer puxar a descarga.

Fica a pergunta incômoda: de que adianta ponte, obra viária e requalificação urbana se o básico não funciona? Água não é luxo, não é diferencial, não é bônus de temporada. É serviço essencial, obrigação contratual e dever do Estado por meio da Sanepar.

Esse colapso expõe algo ainda mais profundo: um descaso estrutural com o Litoral. A região aparece nos discursos oficiais quando chega a eleição, é sempre cartão-postal ou promessa de desenvolvimento. Mas, quando o sistema falha, falta reação política à altura. Prefeitos, lideranças regionais, Assembleia Legislativa, Governo do Estado e Ministério Público precisam entrar nessa guerra porque isso não é normal, não é aceitável e não pode ser tratado como “efeito do verão”.

No fim das contas, o recado é simples e duro: propaganda não mata a sede de ninguém. Enquanto a Sanepar insistir em empurrar a culpa para o consumidor e as autoridades fingirem surpresa a cada temporada, o Litoral seguirá refém de um serviço que falha justamente quando mais precisa funcionar. E isso, mais do que um problema técnico, é um claro caso de descaso. 2026 chegou, vamos ver o quão bonito é o discurso, porque na prática, as coisas não vão nada bem.


Sobre

Jornalista, pós-graduado em Mídias Digitais, com passagem por veículos nacionais como CNN Brasil, Jovem Pan News e Record. Atuou em rádio, TV e internet, além de ter sido colunista de política no portal RIC.com.br.