Se Moro não unifica nem o próprio grupo, como quer governar o Paraná?


JB No Radar

O JB No Radar vai se aprofundar nas principais discussões que movimentam os bastidores da política no Litoral, no Paraná e em todo o Brasil. Análises sobre o xadrez político, disputas regionais e os jogos de poder que moldam os rumos do país.


Por Brayan Valêncio Publicado 09/12/2025 às 18h59

O desacordo público entre União Brasil e Progressistas não é só mais um capítulo da novela da federação. É, na prática, um teste de fogo para medir a capacidade de articulação de Sergio Moro (União Brasil). E o resultado, por enquanto, não é nada animador para quem sonha com o Palácio Iguaçu. O Progressistas não apenas vetou sua candidatura ao governo: fez isso de forma unânime, explícita e sem deixar margem para interpretação. Foi um “não” político e simbólico, daqueles que desmontam um projeto antes mesmo da largada oficial.

Sergio Moro terá um 2026 desafiador se mantir objetivo de chegar ao Palácio Iguaçu sem participar de negociações com caciques políticos. Foto: Reprodução/Redes Sociais

E aí fica a pergunta que certamente vai aparecer durante a eleição: como é que alguém pretende governar um estado complexo como o Paraná se não consegue alinhar sequer dois partidos que, teoricamente, deveriam caminhar juntos?

O discurso de que Moro é “nome forte”, “líder em pesquisas” e “figura nacional” pode até animar parte do eleitorado. Mas, política institucional não funciona só à base de popularidade. Funciona com base em acordos, alianças, concessões e capacidade real de manter um grupo unido. E, nesse quesito, o senador segue preso ao mesmo ponto fraco que o acompanha desde que entrou na vida pública: a dificuldade crônica de construir maioria.

O Progressistas não reclamou de surpresa. A insatisfação vinha crescendo. A sigla queria protagonismo e nunca foi afagada por Moro. E quando percebeu que a candidatura estava sendo encaminhada sem essa costura, resolveu cortar pela raiz. O veto escancara isso: o senador não conseguiu ser o articulador de si mesmo, quem dirá de uma federação inteira.

E esse é o ponto central. Governar não é só emitir ordens ou discursar sobre combate à corrupção. Governar é harmonizar interesses. É segurar pressões. É negociar com quem pensa diferente. É manter o próprio bloco coeso mesmo quando há divergência interna. Se dentro de uma federação de duas siglas já existe ruído suficiente para travar uma candidatura inteira, imagine o caos que seria administrar uma máquina estadual com dezenas de partidos, uma Assembleia cheia de demandas, prefeitos batendo na porta e aliados disputando espaço.

É basicamente o oposto da lógica de magistratura, onde a palavra final é de quem senta na cadeira. Na política, decisões são coletivas e precisam ser sustentadas. Essa transição, Moro até hoje não conseguiu fazer plenamente. Ele opera muito mais na ideia de convicção do que no jogo de coalizão. E, fora da toga, isso costuma custar caro.

O veto do Progressistas não só enfraquece a candidatura, mas expõe a fragilidade estrutural do projeto Moro. Se for preciso reconstruir a federação para mantê-lo, haverá desgaste. Se for preciso mudar de sigla, haverá mais desgaste. E, se insistir sem base sólida, o risco é maior ainda: virar um candidato forte nas pesquisas, mas fraco na política real.

No fim das contas, a pergunta que paira no ar é simples e incômoda: se ele não consegue unir dois partidos que deveriam ser aliados naturais, como pretende unir um estado inteiro? Até agora, Moro tem se esquivado. Mas é exatamente essa resposta que vai definir se sua candidatura avança ou se morre no berço.


Sobre

Jornalista, pós-graduado em Mídias Digitais, com passagem por veículos nacionais como CNN Brasil, Jovem Pan News e Record. Atuou em rádio, TV e internet, além de ter sido colunista de política no portal RIC.com.br.