Uma Câmara que atua contra o bom senso e a realidade de Matinhos
JB No Radar
O JB No Radar vai se aprofundar nas principais discussões que movimentam os bastidores da política no Litoral, no Paraná e em todo o Brasil. Análises sobre o xadrez político, disputas regionais e os jogos de poder que moldam os rumos do país.
O Projeto de Lei 125/2025, que amplia a estrutura administrativa da Câmara de Matinhos, foi aprovado de forma confortável: 10 votos a favor e 2 votos contra, em duas sessões de menos de 20 minutos. E o tamanho dessa margem diz muito sobre como o Legislativo local trata seus próprios interesses quando o assunto é reforçar a máquina interna, especialmente quando isso significa gerar um impacto milionário sem que a sociedade tenha tido sequer a chance de discutir o tema.

O que estava em jogo era a maior reestruturação administrativa em dez anos. Não é pouca coisa. Foram criadas diretorias, assessorias especializadas, novas funções vinculadas à Presidência, à Mesa, às comissões, aos gabinetes: um cardápio completo de cargos comissionados que, somados, custarão R$ 1,44 milhão já em 2026, chegando a R$ 1,59 milhão em 2028. Para uma cidade de 39 mil habitantes, é um salto considerável. E injustificável nos moldes atuais.
A Mesa Diretora repete o discurso de sempre: modernização, eficiência, transparência, suporte jurídico, canais de diálogo com a população. Palavras bonitas, embaladas num projeto que chegou ao plenário com velocidade de foguete, sem audiência pública, sem debate mais amplo, sem exposição detalhada de funções, atribuições e necessidade real de cada posto criado. O básico do básico para qualquer mudança estrutural dessa dimensão ficou pelo caminho.
A comparação com Paranaguá na primeira matéria sobre esse tema aqui no JB Litoral, cidade quase quatro vezes maior e com estrutura bem mais enxuta, irritou a base governista, mas a verdade é que o questionamento não só é legítimo como deveria ter sido respondido com números, estudos e projeções, não com discurso político. Se Paranaguá opera com dois assessores por vereador e oito cargos na Presidência, por que Matinhos precisa de muito mais? É essa conta que ninguém fecha.
O argumento da base do presidente Jair Pescador (PL), de que cada Câmara tem sua realidade, até poderia fazer sentido, não fosse o fato de que essa “realidade” nunca foi devidamente explicada. E quando você olha para Guaratuba e Pontal, a situação fica ainda mais desconfortável. Modernizar não significa, necessariamente, inchar. Modernizar é revisar processos, digitalizar fluxos, melhorar a capacidade técnica, reorganizar equipes. Criar uma máquina maior não é sinônimo de criar uma máquina melhor.
O problema central aqui não é a reestruturação em si, mas a forma. A pressa. O atalho. A completa ausência de debate público. A Câmara se deu um cheque em branco para começar a nomear cargos já no primeiro semestre de 2026, com custo milionário anual, sem que a população soubesse exatamente o que vai levar pra casa.
E quando decisões desse porte são tomadas sem transparência, sem comparativos, sem participação popular e sem justificativas detalhadas, a conta quase sempre sobra para quem menos tem poder de escolha: o contribuinte.
Matinhos não precisa de uma Câmara maior. Precisa de uma Câmara mais responsável. E essa, infelizmente, não é uma questão de tamanho, é uma questão de prioridade.
Mas, nós continuarem aqui cobrando, reclamando e acompanhando cada contratação, cada assessor nomeado e cada salário no final do mês, porque se os eleitos pelo povo não pensam no povo. Nós, do outro lado, seguiremos mostrando e informando.
